Dona Terezinha. Batizada de Tereza Carolina, nome de realeza, mas que, desde pequena, virou Terezinha pela miudeza da figura humana que sempre foi. Depois botaram um Dona, quando ela foi ficando mais senhora. Hoje, beirava os 60 ou 70, sabe-se lá. Era um segredo que ela sempre fazia questão de guardar. “Isso não se conta”, esquiva-se ela, toda vez que era inquirida sobre a idade. Talvez fosse a esperança de ainda encontrar um homem para compartilhar sua vida, depois que o falecido a tinha deixado na mão. O filho único já morava em outra cidade e não podia muito contar com a presença dele. Dona Terezinha ficava ali mesmo em casa, quieta, a maior parte do tempo. Fazia uma comidinha aqui, um bordadinho ali. Geralmente abria o janelão da sala para dar uma ventilada e aproveitava para dar uma olhadinha no movimento da rua. Outras vezes adotava um cachorro faminto ou um bichano com cara de coitado. Alimentava o bichinho por alguns dias e fazia dele uma companhia para o tédio. Depois punha para correr e continuava a alimentar apenas o vazio da sua casa. Outro dia, Dona Terezinha cismou que queria descobrir os computadores. Mexeu na poupança deixada pelo falecido e adquiriu um PC que pudesse levá-la ao mundo virtual, como já ouvira falar. Equipamento bacana, com gravador de DVD e tela plana. Pelejou com aquilo, mas era de uma outra época. Essas virtualidades eram uma coisa muito desagradável, fato comentado com a vizinha da consulta ao ortopedista, que ela fazia semestralmente. Ela era de uma época em que prezavam as relações humanas e o contato real. Um dia cobriu aquilo tudo com uma rendinha bordada com flores coloridas e largou para lá. Uma novelinha e um telejornal até que dava para agüentar, mas aquilo ali era muito frio. Resolveu investir na TV. Ligou para a operadora de TV a cabo e radicalizou. Uma moça de fino trato e voz aveludada a convenceu a assinar um plano completo de 115 opções de áudio e vídeo. Programas de bois e sujeitos das arábias cantando cafajestemente, começaram a invadir a sua residência. Futebol, música, novelas, filmes, seriados, desenhos animados. Achou aquilo legal, até uma produçãozinha erótica, Dona Terezinha assistia vez ou outra para alimentar o calor das entranhas. Moços bonitos e meninas sem vergonha apareciam bem diante dos seus olhos. Nessas ocasiões, Dona Terezinha fechava bem as janelas e colocava o volume bem baixinho, para não pensassem que ela havia ficado louca. Dia desses, empolgada após uma sessão de safadezas televisivas, a senhora Dona Terezinha quis dar cabo a um plano ousado. Ligou para um 0800 de um desses disk-pizza qualquer que descobriu na lista telefônica e pediu uma pizza meio portuguesa e meio frango com catupiry. Mas isso era o de menos. A mulher estava interessada era na pessoa que traria a refeição. Imaginou um moreno de bigodes, de casaco de couro marrom, montado em uma motocicleta preta, com detalhes metalizados. Dona Terezinha vestiu um robe de seda que era a paixão do falecido. Cor de uva, mas daquelas com nome francês. Detalhes em dourado na região do colo. Por baixo, a ousadia maior. Nada. Nem um fiapo de pano que pudesse lhe cobrir as partes pudendas. Borrifou um perfume no pescoço e sentou-se no sofá, aguardando o tocar da campainha. Até nesse momento ainda se sentia confortável. Porém, começou a achar aquilo tudo muito estranho e teve a impressão que o falecido a espionava em algum lugar daquela sala. Até da Irmã Dionísia, do Colégio Santa Luzia, onde fez o longínquo primário, parecia lhe dar uma descompostura. Estava incomodada, em situação desagradável. Lembrou-se da vizinha do ortopedista, com a bacia deslocada. Ouviu um barulho de motor chegando nas proximidades. Agora sentia-se em pânico com a possibilidade da campainha tocar. E foi o que aconteceu. Dona Terezinha não sabia o que fazer. Sentiu um remorso muito grande de ter feito aquilo. Correu até o banheiro, pegou uma saída de tecido atoalhado e jogou por cima do robe chinês. Atendeu a porta e deparou-se com um sujeito baixo, que tinha certeza originar-se do Ceará. Nada de bigodes ou músculos. Apenas uma barriga e calvície avantajadas e uma cara de poucos amigos. Melhor assim. Recolheu o embrulho das mãos do entregador que ficou conferindo o pagamento. Talvez esperasse uma gorjeta, mas Donta Terezinha não deu um tostão a mais. Não queira intimidades naquela hora. O sujeito saiu carranqueando até a moto de escapamento furado. Sumiu rapidamente, enquanto Dona Terezinha fechava a porta da casa. Ouviu um miado baixinho e viu um gato amarelado tentando entrar pela sala adentro. Não se opôs à tentativa do felino, que entrou rapidamente. Ela entrou atrás na casa, foi até o computador às moscas, retirou a cobertura de renda e trocou-a de lugar, colocando por cima da TV 29 polegadas. Pareceu mais seguro. Ainda colocou um pequeno vaso de violetas para que o vento não levasse o tecido. Foi até a cozinha e pegou um prato de louça para se servir da pizza. O gatinho ganhou uma vasilha de metal, com a lateral amassada.
(dito em 6/26/2009 05:32:04 PM )::
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Wonderful World
Ficou ali na frente da máquina caça-níqueis esperando a mulher que jogava sair, para tentar a sua sorte. O bom é que aprendia a manusear o equipamento. Parecia não haver dúvidas: uma moedinha, um botãozinho e sorte. A mulher saiu e deixou a máquina à minha disposição. “Thank you”, agora é chegada a hora da minha sorte brilhar. 600.000 era o prêmio máximo, estampado na diversidade piscante que enfeitava a máquina. Rapidamente, colocou a primeira moedinha e já disparou a sorte, mas nada. Ainda tinha mais algumas tentativas. Foi enfiando uma após outra, a cada revés nas tentativas. Ficou liso. Era pouco o que tinha, mas ele não podia deixar barato. Sacou uma nota de 10 e resolveu trocá-la por mais moedas. Olhou à frente e viu um caixa disponível, com uma bela garota loira de olhos azuis. Antes de solicitar a troca, a garota pediu que ele colocasse o copo onde ela tomava o seu café em cima do balcão ao lado. Entendeu perfeitamente e viu que o seu inglês não estava tão ruim quanto imaginava. Na volta ao caixa, ao dar a nota de 10, a menina já lhe passou o dinheiro trocado. Várias moedinhas, que fariam o serviço. Não é possível que era só nos filmes que aquelas máquinas davam aqueles prêmios enormes e as campainhas soavam, informando a todos que ali havia mais um milionário sortudo. Voltou à máquina que estava usando e a encontrou com defeito. Seria um prenúncio? Saiu dali em direção ao corredor ao lado, onde havia várias outras máquinas, desta vez acompanhadas de outros tipos de jogos. Parecia um fliperama gigante, daqueles que haviam ao lado do ponto de ônibus, perto da sua antiga casa. Apenas um galpão, cheio de máquinas de jogos. Definitivamente, aquele não era um dos cassinos mais chiques. Pelo que lhe falaram e ele havia visto nos sites e revistas, havia coisa muito melhor. Resolveu, então, ficar rico em grande estilo. Sairia dali e tentaria a sorte num daqueles outros chiquérrimos e enormes. Procurou a saída e, no caminho, começou a tocar o hino americano. Tentou se lembrar do nome, mas só vinha na cabeça o negão cantando “What a Wonderful World”. Todos pararam e se portaram em posição de respeito para ouvir o hino. Continuou andando, pois queria sair dali. Viu que um grupo de crianças se aproximava, como se fosse um desfile de 7 de setembro. “Que merda, preciso sair daqui antes que esse pessoal chegue e atrapalhe o meu destino milionário”, ele pensou, enquanto saía rapidamente dali. Conseguiu sair antes de ser impedido pela comitiva estudantil. Na rua pode reparar que realmente estava numa área mais distante. Caminhou até uma placa na rua, mas não reconheceu o nome que estava escrito ali. Procuraria a Strip Boulevard, que o levaria aos grandes hotéis e à fortuna que lhe aguardava. Ali naquele lugar não havia glamour. Era como Caldas Novas. Mais ao longe, avistou a silhueta dos grandes prédios, para onde se dirigiria. O sol estava forte e aquela blusa pesada o incomodava agora. Arrependeu-se de não ter pego uma mochila, onde poderia guardá-la, juntamente com a máquina fotográfica, que pesava no seu ombro. Seguiu andando por mais um pouco e viu, à frente, um cruzamento se fechar, à espera de um trem que se aproximava. Os carros iam parando, para aguardar a passagem dos vagões. Lembrou-se do Raul Seixas e o seu trem das sete. Ou seria das nove. “Ói, ói o trem...”. O trem deu um apito ao chegar no cruzamento. “Que pitoresco!”, ele pensava, enquanto o trem cruzava em alta velocidade. Apitou de novo. E de novo. Mais uma vez. Já estava ficando chato. “Bosta!”, ele pensou, enquanto desferia a mãozada no despertador. Não deu tempo nem de chegar ao Hotel Bellagio e suas fontes dançantes. Arregalou os olhos e conferiu o horário. Não tinha jeito. Se não se apressasse, perderia o horário. Correu para o banheiro, tentando contentar-se com aquela real maneira de ganhar o seu dinheirinho.
(dito em 1/19/2009 09:27:28 AM )::
Terça-feira, Julho 29, 2008
Dia de folia
- Pode pedir uma pizza, você não tava querendo?
O menino olhou meio espantado para o pai, que não era dado a esse tipo de bondade. No máximo, deixava comprar uma laranjinha com o picolezeiro do carrinho azul que passava perto da sua casa no domingo. Isso quando o infeliz não ficava tocando aquele apito estridente, que fazia o pai esculhambá-lo de toda maneira da janela do quarto. Mas agora ali ele tinha que aproveitar a brecha. Pizza era coisa rara na sua vida. Umas duas ou três vezes, em festinhas do bairro. No shopping devia ser pizzaria de bacana. O pai chamou o garçom, que trouxe um cardápio cheio de opções. A única que o garoto conhecia era a de queijo com molho de extrato e uma azeitona verde, daquelas pequenininhas e de caroço. Não achou essa no cardápio. Devia ter algum nome esquisito, como aqueles outros que estavam lá.
- E aí, qual você vai querer?
- Tem de queijo?
O pai leu novamente a lista e disse que todas tinham.
- Pode ser qualquer uma. – disse o garoto.
O pai, incomodado com a presença do garçom de avental vermelho ao lado, pediu a terceira da lista, só para ver se aquele cara saía dali logo.
- Traz uma coca também.
O menino abriu ainda mais o sorriso. Coca-cola e pizza era coisa de outro mundo. Segurou no braço do pai para demonstrar um pouco do seu agradecimento. O pai continuou lá com a sua cara pensativa e sem reação.
Chegou a pizza e o menino atacou.
- Olha, tem lingüiça! – disse para o pai, enquanto despejava todos os sachês de ketchup em cima da massa.
Depois de tudo devorado e de bebida toda a lata do refrigerante, o menino teve uma enorme vontade de soltar um arroto. Mas segurou com força para evitar o vexame. Talvez o seu pai nunca mais o levasse para um programa como aquele novamente.
- Pronto? – perguntou o pai.
Diante da afirmativa do moleque, ele chamou novamente o homem do avental vermelho e pediu a conta. Recebeu um valor que doeria no seu bolso. Mas com certeza doeria menos do que o que ela havia feito antes do passeio. Tirou umas notas surradas do bolso e deu ao garçom, que conferiu e retornou umas moedas como troco. Conferiu as moedas e o resto do dinheiro que ficou no bolso. Viu que dava para o ônibus da volta. O menino ainda tentou pedir um picolé, pois talvez o pai estivesse realmente num bom dia. Mas não conseguiu. Também já estava bom. Só queria agora chegar em casa e contar a aventura gastronômica, que ele nem sabia que tinha esse nome, para a sua mãe e para o Joinha, o cachorro. Porém, o pai havia cansado daquele bicho sarnento, daqueles latidos de madrugada e de toda aquela loucura de gente ficar conversando com cachorro o dia todo. Joinha não escutaria mais aquela história.
(dito em 7/29/2008 04:21:56 PM )::
Sexta-feira, Maio 02, 2008
Fogo e paixão
Estava desanimado com aquele tempo frio que fazia do lado de fora, mas ao mesmo tempo pensava em quanto seria bom se enfiar com alguém debaixo das cobertas naquele tempinho frio. Olhou bem para a sua desarrumada e convidativa cama e decidiu-se pela segunda opção. Saiu do apartamento e desceu pelas escadas fantasiando encontros com garotas voluptuosas e sedentas de prazer. Não conseguiu nada por ali. Chegou no térreo e ficou ali de bobeira, sentado em um banco que ladeava um jardim de plantas quase mortas. Enquanto soprava fumaça pela boca, pensava na possibilidade de encontrar a menina do 602. Era ela quem ele realmente procurava, depois da última vez na garagem, quando ela ficou passando a mão na sua perna. Mas ele ficou sem coragem para tentar algo mais ali naquele ambiente sem graça. Ele queria é que fosse no seu quarto, com vista para a praça, mas naquele dia a sua família inteira estava em casa. Hoje não, hoje o apartamento estava vazio e ele não pestanejaria em levá-la até lá. Soprou mais um pouco de fumaça e resolveu ir até a portaria do prédio. Perguntou ao porteiro pela menina do 602 e ficou sabendo que ela havia saído há pouco. Conversou algumas asneiras com o porteiro e folheou uma revista de sacanagem que ele tinha guardado numa fresta embaixo do armário do banheirinho. Aquilo atiçou ainda mais os seus hormônios adolescentes. Saiu do prédio e deu uma volta na praça, novamente na esperança de garotas se oferecendo ao prazer. Mais uma vez nada. Agora caía uma chuvinha fina, que o levou de volta ao prédio e novamente a um banquinho, agora no hall dos elevadores. Ele havia acabado de sentar, quando ela entrou, segurando alguns cadernos sobre a cabeça para se proteger da chuva. A garota do 602, esplendorosamente molhada. Ela deve ter notado a cara de satisfação que ele fez ao vê-la entrando pelo salão, pois perguntou o porque daquela cara de bobo. Ele respondeu que só havia achado engraçado o modo como ela entrou correndo pelo salão. Ela riu e o chamou de bobo mais uma vez. E sentou-se ao seu lado, como ele havia imaginado no banco do jardim. Ficaram conversando sobre chuvas e aulas de inglês, até que novamente as mãos dela voltaram a pousar sobre as pernas dele. A certeza que ele tinha de levá-la para casa foi trocada por um rosto vermelho e fumegante. Tentava pensar nos corpos nus se esfregando por baixo de edredons, mas conseguia apenas sentir as mãos trêmulas e frias. E a cara de bobo que teimava em não lhe abandonar. Ela falou alguma coisa a respeito de se enxugar, mas ele não conseguiu ouvir direito. Ela deu um beijo no seu rosto e a sua cara de bobo atingiu o seu ápice. Ela riu mais uma vez enquanto ele conseguiu apenas dizer um “depois a gente se vê”. Ele ainda teve tempo de esboçar alguma reação enquanto ela esperava o elevador que descia do 8º andar. Nada. Ela entrou sem olhar para trás e ele viu o elevador se fechar bem na sua frente e levar a garota do 602. Ele ainda ficou alguns minutos olhando para o número 6 vermelho no mostrador ao lado do elevador, até resolver sair dali. Esfregou as mãos e levantou a gola da blusa, antes de sair na chuva em direção à praça vazia.
(dito em 5/2/2008 05:11:07 PM )::
Quarta-feira, Março 19, 2008
Porque eu tô voltando...
Jesuíno Adamastor. Nascido em 15/06/1963. Morto em 23/05/2006. Assim estava escrito num pedaço de cimento ao lado da cova num cemiteriozinho de Almajari, no interior de Roraima. Dizem que foi febre amarela. Mas Jesuíno foi visto algum tempo depois, em Rosalândia, no Tocantins, onde morreu de complicações circulatórias, atestadas por um documento fuleiro, que nunca foi reclamado num hospital da prefeitura. Em Nova Aurora, Goiás, ele reapareceu, mas logo foi vítima de um AVC, enquanto trabalhava no cafezal, num dia de baixa umidade relativa do ar. Um pouco mais ao sul, em Monte Alegre de Minas, quando novamente esteve entre nós, foi colhido por uma moto 125cc, depois que saiu bêbado de um buteco sujo, após tomar algumas doses de uma caninha de origem duvidosa. Traumatismo craniano foi a causa mortis. A sua cova dessa vez ficou um pouco mais bonitinha e tinha até flores cercando o cimento duro. Geograficamente ele já estava próximo e a sua esposa Marialva continuava esperando o dinheiro que Jesuíno prometera de joelhos no chão, quando saiu do interior paranaense em direção ao sonho americano. Mas ele não chegou até lá. Tinha mais uma lápide no México, onde junto ao nome havia alguns escritos em uma língua que Marialva desconhecia. Lá ele morreu de tristeza profunda, antes de tentar cruzar a fronteira.
(dito em 3/19/2008 05:40:00 PM )::
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
Justiceiro implacável
Batistão. Assim mesmo no aumentativo, como se o pai adivinhasse que aquele bebezinho com cara de joelho fosse virar aquele brutamontes que era hoje. Hoje era sábado e sábado era o dia do futebol de manhã, com a turma lá da firma. Mas o que Batistão gostava mesmo era da cerveja que rolava depois do esporte bretão. Ficava lá bebendo até mais tarde quando pegava o carro de volta pra casa. Era na hora em que sabia que a mulher já devia estar terminando o almoço. Não precisaria ficar em casa esperando a comida ficar pronta. No máximo, o tempo de uma lata de cerveja que tomava na cozinha, apertando a bunda de Eulália. Eulália era a esposa, que não gostava muito quando Batistão chegava do futebol mais cedo. Ficava na cozinha beliscando a sua bunda e ela ficava incomodada, pois o filho estava ali por perto e ela não gostava dessas liberdades na frente do guri. Mas Batistão não estava nem aí para Eulália, nem para o filho que ficava dizendo para o pai que queria ir ao futebol. “Vê só!”, pensava Batistão, imaginando aquele pirralho correndo pela quadra, interrompendo o seu futebol, a sua cerveja e a sua conversa. Aquele sábado foi um dos tradicionais, em que Batistão ficou apertando a bunda da patroa de cara feita. Feijoada foi o prato do almoço. Com todos os pedaços do suíno que se convém a uma bela feijoada. Ainda estava chupando um pedaço do pé do porco, quando a TV anunciou o faroeste. “Beleza!”, ele pensou, enquanto dava um gole na cerveja para empurrar a carne goela abaixo. Largou o prato cheio de ossos na mesa, enquanto levantava e dava um belo arroto, para desespero de Eulália e alegria do garoto, que ficou rindo do pai. Sábado à tarde. Barriga cheia, cervejinha do lado e cowboyzão dos bons na TV. Esparramou-se na poltrona de courino vermelho e botou a cerveja na mesinha ao lado, enquanto Eulália arrumava a cozinha do almoço. O menino postou-se à sua frente pedindo um novo arroto, que fosse tão alto, que o Juvenal, o vizinho, pudesse escutar. “Ô, menino! Sai da frente, caralho!” Queria assistir o filme, era daquele dos bons, muito sangue e balas. O filho parou com os pedidos de arroto, mas continuava a brincar na sala e teimava em atrapalhar o seu programa. “Ô mulé, não tá vendo que o seu filho tá aqui me atrapalhando?”, gritou Batistão. “Aproveita e me traz mais uma cerveja!” . Eulália veio esbaforida com a cerveja na mão e levou o pivete, que saiu chorando com um bonequinho na mão. O homem pegou a cerveja, reclamou da temperatura, abriu e deu mais uma bela golada. O tiroteio corria frouxo na TV. Estranhou o olhar do bandido em direção à câmera. Deu até medo. Ficou cismado que ele estava o repreendendo pela atitude com o filho. E o vilão voltou a atirar contra os mocinhos. Porém, uma das balas foi destinada ao homem no sofá, que deixou a cerveja cair ao sentir o projétil perfurando o seu tórax. Enterraram Batistão como mais uma vítima de bala perdida. Na volta para casa, Eulália ficou pensando como sustentar o menino, que havia ficado em casa, cuidado pela avó materna. Sabe-se que o filho cresceu e virou bandido, para se vingar de alguém que não existia e que havia dado fim ao seu pai, aquele que nunca o levou ao futebol.
(dito em 11/9/2007 04:02:19 PM )::
Sexta-feira, Agosto 03, 2007
Alça de mira
Ele já estava bêbado e sabia que quando ficava nessa situação perdia completamente o controle. Havia sido provocado a noite toda, não podia aceitar aquilo mansamente. Afinal, ele tinha um nome a zelar. Tinha que pegar a vítima desprevenida, atacar de surpresa. Ficou de longe espionando, com o coração acelerado. O alvo agora estava sozinho. Era chegada a hora. Tomou o resto de uísque que jazia no copo em sua mão suada e partiu para o ataque. Adrenalina. Seria rápido e direto. Bateu no ombro direito da vítima e esperou que ela virasse. A moça não esboçou nenhuma palavra. A língua dele penetrou por dentro de sua boca, abafando qualquer reação. Ela ficou com a perna bamba e o rosto vermelho como a rosa que ele lhe daria no final festa.
(dito em 8/3/2007 05:47:00 PM )::
Terça-feira, Abril 24, 2007
Café de colombie
Fim de trabalho. Dionísio saiu correndo esbaforido daquele lugar que consumia os seus dias da semana. Passou na padaria da esquina para comprar o pão de amanhã e aproveitou para tomar um café forte e comprar um maço de cigarros de menta, pois havia fumado o último no intervalo do almoço. Pegou a moto no estacionamento do shopping e foi embora pra casa. Queria tomar um banho e deitar no sofá para ver a novela. No caminho, fumando um dos mentolados, sentiu um tranco no motor e uma súbita parada. Luzes coloridas, vindas do céu, iluminaram o local onde a moto parou de vez. Parecia uma boate sem música. Em 3 segundos, foi sugado como uma formiga. Viu-se num salão, rodeado de seres baixotes, parecendo tartarugas ninja, olhando atentamente para ele. Um deles se aproximou e borrifou uma fumacinha na sua cara. Lembrou-se do lança-perfume no carnaval. Foi a última lembrança antes de despencar de volta à moto. "Caralho! Deve ter estragado a suspensão". Mas conseguiu ligar a moto e sair dali. Pensou em diminuir o café e o cigarro. Estranhou o caminho de volta e ao chegar na vizinhança, viu que no lugar de sua casa havia uma peixaria com um anotador de jogo do bicho na porta. Na fila, dois senhores de chapéu e uma velhinha com uma sacola de supermercado. Acendeu outro mentolado, depois de assistir aquela cena. Desceu da moto e foi em direção ao estabelecimento. Uma rajada de luz varreu a rua e sumiu com ele. Ninguém viu nada, nem mesmo o toco de cigarro de menta que ficou aceso no chão. Uma semana depois encontraram seu corpo, próximo a uma vinícola nos Andes. A moto foi encaminhada ao depósito da polícia civil. O pão endureceu e virou comida de cachorro.
(dito em 4/24/2007 05:16:45 PM )::
Sexta-feira, Março 02, 2007
Biritas promissoras ali na frente
É porque hoje é quinta-feira e quinta-feira é o melhor dia. Para mim é, vou fazer o que? Tem gente que gosta de sábado, de sexta, de domingo. Mas o melhor para mim é quinta. Nem lá, nem cá. Por isso estava lá no quarto me preparando, nada de roupas por enquanto, somente um uísquezinho num copo onde morava apenas uma pedra de gelo. Só para dar uma quebrada, porque tá quente pra caralho e uma pedrinha só não faz mal a ninguém. Liguei a TV e fiquei passando os canais, procurando, quem sabe, uma musiquinha legal num desses clipes cheios de história, onde você fica lá mais fascinado com as imagens do que com o som, ou mesmo com a comunhão daquilo tudo. Nada. Parei numa história de uns caras que ficaram perdidos no meio da selva amazônica. O que é isso, meu Deus? Na segunda dose, já tinha achado um programa mais leve, desses com músicas e tal. Fui lá no banheiro e dei uma olhada no espelho, antes de dar uma bela mijada. A cara tava boa, mas precisava de um cabelo novo. Vesti uma calça já na terceira leva de bebida, desta vez uma lata de cerveja que consegui capturar no compartimento subcongeladorial da geladeira. Sorvia a gelada, enquanto olhava as camisas que balançavam pelo armário. Antes de tudo, pensava em uma verde, mas decidi por uma branca, de mangas longas, faltando um botão no punho. Fui ao banheiro novamente e pensei o mesmo do cabelo. Escovei os dentes, olhando para alguns fios que teimavam em desobedecer a ordem natural das coisas. Joguei uma água no rosto e passei um pouco pelo cabelo, como se fosse um gel de primeira linha. Pareceu ter amenizado a desconfiança. Mandei ver ali mesmo um pouco de spray perfumante e desconfiei ter acertado a lata de cerveja que adormecia ali ao lado. Uma talagada serviu para dissipar a dúvida: nada havia sido afetado, poderia continuar bebendo daquele lugar, apesar do que umas gotas de cheirinho também não afetariam em nada a performance da bebida. Quase tudo pronto. Sapatos no pé, com meias sem furo, combinando com o calçado. Pronto, apesar do cabelo ainda parecer fora do combinado. Uma última golada na cerveja e um último arroto contido e gelado, antes de jogar a lata no saco preto de lixo, que ficaria ali naquela noite e só seria jogado fora na próxima saída. Acessórios todos na mão e nos bolsos. Casa trancada, corredor vazio, elevador na garagem, será que indicando que alguém já devia ter saído para a noite de quinta-feira? Encontraria algum vizinho aí pela noitada? Sei lá o que seria, mas chamei o elevador de volta, para que pudesse me levar até a portaria. Nada de carro, sairia aí a perambular a pé mesmo, pois é muito melhor sentir a brisa da noite na cara, enquanto se acha um lugar para ir. As opções não são muitas mesmo, é quase sempre um único destino o meu, então nada de chaves e manobras automobilísticas. Uns passos e umas figuras noturnas são muito melhores nessa hora, juntos com um cigarro mentolado e uma cerveja na mão, isso se achar a loja do posto aberta para que me vendam uma latinha de 0,99 com aquele papelzinho aluminado por cima. Entro no elevador apalpando os bolsos para ver se tudo está ali onde deveria. Penso nos fios descabelados, enquanto aperto o botãozinho com a letra T, que fica aceso com uma luz esverdeada, que deve iluminar tudo aqui mesmo se eu apagar a luz, mas fico imaginando que se fizer isso agora pode trazer azar e a energia pode acabar e o meu programa de quinta-feira à noite pode terminar em uma longa noite dentro de um elevador apertado. Nem termino de pensar nisso e a porta do elevador se abre na portaria vazia. Só uma luzinha lá na frente, dentro da guarita do porteiro, indicava a possibilidade de haver vida naquele local. O resto estava completamente abandonado. Cumprimentei o habitante do cubículo iluminado e ganhei a rua, quase tão abandonada quanto aquele lugar que acabava de deixar. Parei no portão de saída e olhei para a esquina esperando ver as luzes do posto de gasolina acesas, o que me garantiria a cerveja de 0,99 com o papelzinho de alumínio em cima. Iluminação total. Cerveja garantida, compraria também uns chicletes daqueles ardidos, sabor menta extra-forte, que limpam o hálito de qualquer bebum. Um carro passou em alta velocidade e fiquei imaginando quão trágico seria ser atropelado ali na saída para uma noitada de quinta-feira. Olhei para os dois lados antes de atravessar a rua e deixei para acender o cigarro do outro lado da calçada, quando já estava em segurança. Fogo no isqueiro vermelho e fogo na ponta do mentolado que adquiriu a mesma coloração do isqueiro que o acendia. Um vento bateu mais forte e já imaginei os cabelos ficando um pouco mais deselegantes do que já estavam. Passei a mão por eles para dar uma assentada e diminuí a marcha para que pudesse terminar o cigarro antes de entrar soltando fumaça dentro do posto de gasolina, aonde iria compra uma latinha de cerveja a 0,99 e uns chicletes extra-fortes e dali seguir para a noite, para algum bar bacana, com gente interessante perambulando. Porque hoje é quinta-feira e quinta-feira é o melhor dia.
(dito em 3/2/2007 04:51:19 PM )::
Quinta-feira, Dezembro 07, 2006
Só um minutinho
Ele mandou a cara na porta, mas porra o que é que eu tenho com isso? Será que não tá vendo que ali tem um vidro? E olha que essa bosta nunca tá limpinha, a ponto do cara achar que ali não tem nada... "Por que você não põe uma faixa ali no meio para não acontecer isso?", o cara perguntou com uma expressão dolorida. Deu vontade de mandar ele se fuder, mas as leis do comércio e do bom atendimento dizem que você tem que dar ouvidos ao cliente. Respondi qualquer bobagem e deixei pra lá, mas o cara insistia em mostrar o calombo que se formou na sua testa. Se ele soubesse o que a Ritinha tinha feito comigo hoje, ele não ficava por aqui com essas gracinhas. Será que quer o que, o infeliz? Que eu pague indenização? Repeti mais alguma desculpa e o boçal teimava em praguejar em relação ao ocorrido. Olhei para a garota que gerenciava a loja para mim e que agora estava no caixa, recebendo um pagamento qualquer. Ela sentiu o perigo da situação e apressou-se nas suas funções. Ofereceu um quitute qualquer ao indivíduo, antes que eu desse com o grampeador na sua cara e fizesse daquele calombo um bom motivo para ele sentir dor. O cara ainda proferiu algumas leis do direito, mas eu preferi enfiar uns fones nos meus ouvidos e aumentar o som. Era um blues daqueles antigos, que só me fazia pensar uma coisa: Ritinha. Pelo menos o freguês sumiu da minha cabeça naquela hora e a vontade de quebrar os seus dentes foi embora. Agora era só pensar num jeito de resolver a situação com aquela vagabunda. "Ritinha, Ritinha", continuava pensando, enquanto um ônibus freava bruscamente na esquina, quase atropelando um cachorro, que saiu ganindo em direção à praça.
(dito em 12/7/2006 05:42:57 PM )::
Quarta-feira, Agosto 23, 2006
Another hero
A figura no cartaz que mais lhe chamava a atenção não era a do mocinho galã, mas a da grandalhona de rebeldes cabelos loiros. Tina Turner, ele sabia, era o nome da atriz. Mad Max e alguma coisa era o nome do filme. Ficou olhando para o cartaz pregado na parede cheia de rachaduras. O cartaz já estava meio gasto e embaçado. A figura da Tina Turner parecia mais loira do que o normal, quase não se via mais os cabelos, que estavam misturados à imagem de fundo. Mel Gibson era quase um cadáver, de tão pálido. Desviou o olhar do cartaz em direção ao relógio. Cinco minutos de atraso não era muito, estava até dentro do normal, mas ele já começava a ficar agoniado. Foi olhar pela fresta da janela, ver o movimento e talvez vê-la chegando para trazer-lhe o alívio. Sentou numa cadeira de plástico vermelho que estava embaixo da janela e tentou ver a rua. Não conseguiu. O seu ângulo de visão permitia ver apenas a lateral da portaria de entrada do prédio onde estava. E a parede do prédio ao lado. Duas janelinhas basculantes ficavam nessa parede. Ficou olhando para elas, tentando entender porque estavam ali, naquela parede enorme, sem mais nada além delas. Viu um vulto em uma delas. Poderia ser um banheiro, poderia ser alguém tomando um banho ou dando uma mijada gloriosa. Viu uma luz brilhar na janelinha do lado. Pensou em velas acesas e rituais de magia negra. Desviou o olhar novamente para o relógio. Atraso. Se em mais cinco minutos ela não chegasse, ele desceria para ligar em algum orelhão por ali. A cobrar mesmo, só para sacanear. Riu baixinho da situação. Voltou o olhar para a fresta. As janelinhas do vizinho agora estavam sem movimento. Tudo parado e ninguém à vista. Só Tina Turner e Mel Gibson, que vigiavam na parede ao fundo. Olhou para eles mais uma vez. Mais uma vez os cabelos loiros chamaram atenção. Relógio. Cinco minutos mais. Riu novamente da ligação a cobrar, da musiquinha e da cara indignada da outra. Mas não desceu, esperaria por ela ali, sentado na cadeirinha vermelha. Olhou pela janela mais uma vez, desta vez em direção à portaria. Viu um senhor sair com uma sacolinha de papel na mão, daquelas de loja. Parecia estar vazia. O velho deixou-a no chão para trancar a porta. Ficou imaginando um daqueles vários pivetes, que viu enquanto caminhava até o prédio, passando por ali correndo e levando a sacolinha do coitado. Riu de novo. Sua previsão não aconteceu, pois ele pegou a sacolinha rapidamente. Não precisou trancar a porta, pois ela chegou e fez um gesto para que ele a deixasse aberta. Viu rapidamente a saia vermelha esvoaçante entrando porta adentro. Palpitação. Levantou da cadeira e foi destrancar a porta sob os olhares atentos do pessoal do cartaz. Voltou para a cadeira vermelha e a posicionou virada em direção à porta. Ficou ouvindo os passos e acompanhando a sua chegada. Os passos cada vez mais próximos e o coração cada vez mais acelerado. Ela bateu dois toques na porta e já mexeu na maçaneta, antes mesmo que ele gritasse um "tá aberta!". Ela entrou e fechou a porta rapidamente. Caminhou até onde ele permanecia sentado, imóvel. Apenas uma gota de suor escorria pela lateral do rosto. Ela não disse nada. Apenas abriu a bolsa e tirou um pequeno pacote e jogou no chão. Ele se levantou rapidamente para pegar, mas ela pisou sobre o embrulho. Ele já sabia o que era. Enfiou a mão pelos bolsos da calça e tirou algumas notas que estavam esparramadas por ali. Entregou-as a ela, que conferiu tudo, colocando as notas em ordem de valor. Tirou o pé de cima do pacote e virou de costas, mais uma vez em silêncio. "Bela bunda!", qualquer um pensaria. Mas ele não estava interessado nesses prazeres por agora. Também iria lhe custar mais algumas notas, que ele já nem tinha. Nem esperou ela fechar a porta e já estava com o pacote aberto em cima da cadeira vermelha. Entregou-se aos prazeres do pó branco que tinha sido desembrulhado e só então pode perceber a melodia que saía do cartaz desbotado. Tina Turner tinha soltado a voz.
(dito em 8/23/2006 04:23:37 PM )::
Quinta-feira, Julho 06, 2006
Eu te darei o céu, meu bem
Tirou o uniforme e vestiu uma coisa assim mais confortável. Não tomou nem banho, para não atrasar a saída. Afinal já tinha tomado uma bela ducha pela manhã e apenas algumas gotinhas de perfume fariam a vez. Passou a mão pelos cabelos e resolveu prendê-los com um rabo. Batom, celular e carteira. Jogou tudo dentro da bolsa. Apagou a luz do quarto, mas deixou a do banheiro acesa para garantir a visão noturna no retorno. No saguão do hotel tentou achar alguma revista, jornal ou folheto que lhe desse alguma dica do que fazer. Não achou nada. Não quis perguntar ao moço da recepção com medo de parecer oferecida. Saiu porta afora e ficou analisando o movimento na rua. Morno. Talvez existisse alguma coisa fora daquelas redondezas, mas nem imaginava onde. Acendeu um cigarro e resolveu andar pela vizinhança. Lojas de eletrodomésticos, bancos e magazines populares. Um boteco aqui, um restaurante acolá, mas nada que convidasse a uma cerveja. Foi ficando desanimada e com fome. Resolveu comer alguma coisa e, quem sabe, fazer amizade com alguém que lhe desse umas dicas. Entrou num restaurante que lhe pareceu honesto e sentou numa mesa no canto, de frente para a rua. O garçom veio e lhe deu um cardápio. O quente do lugar era um bufê de massas, o cozinheiro preparava ali mesmo os pratos com os ingredientes que ela escolheria. Interessante. Pediu uma cerveja enquanto analisava o restante do cardápio. Bebeu aquela e mais uma outra. Começou a reparar no rapaz que preparava as massas. Pediu a terceira e começou a achar que o reparo era mútuo. Deu até um jeito de mudar de lugar depois que voltou do banheiro. Tudo para facilitar a troca de olhares. Deu um tempo na cerveja e resolveu agir. Escolheu um momento mais tranqüilo, onde pudesse gastar um tempinho a mais na preparação do prato. Puxou assunto, conversou sobre molhos, ingredientes e acompanhamentos. Quis aproveitar o pouco tempo para impressionar. O rapaz ficou um pouco sem graça, mas pareceu ceder à investida. No segundo prato, que ela resolveu comer apenas como desculpa, combinaram um local para logo mais. Ele sairia às onze e ela o aguardou durante mais algumas cervejas. Saíram dali para um boteco que ficava próximo. Agora ela já não fazia mais restrições. Sentaram numa mesa de ferro vermelha, na calçada, próxima à grelha que preparava espetinhos de origem duvidosa. Ela foi conferir o banheiro nos fundos da birosca e, por um instante imaginou que naquele intervalo ele sumiria dali, levando bolsa que ela havia deixado pendurada na cadeira. Fez um xixi tenso, nem as mãos ela lavou. Na volta ele já estava com um espetinho com molho e farinha nas mãos e uma garrafa de cerveja na mesa. Beberam aquela e mais várias outras e conversaram como se fosse amigos antigos, que há muito não se viam. Ela tentou algumas maiores aproximações, mas ele cedeu apenas um beijo, quando já haviam encerrado a conta. Ela ainda sugeriu uma visita ao seu quarto de hotel, para esvaziarem o frigobar, mas ele recusou, alegando horários de transporte coletivo. Despediram-se com um segundo beijo. "Eu sei onde te encontrar...", ela disse, antes de ir embora, tonta, tentando se lembrar se havia deixado alguma luz do quarto acesa. Acordou meio ressaqueada no dia seguinte, mas lembrava-se bem da noite anterior."Grande cara!", ela pensava. Só de não ter aproveitado do seu estado de embriaguez, para ela já era uma grande virtude. E era bonitinho, tinha uma conversa boa e sabia preparar um carbonara como ninguém. Tinha uma reunião marcada até às duas e o seu vôo de volta era às quatro. Enquanto esperava a água do chuveiro esquentar, ficou pensando numa maneira de vê-lo novamente. "Devia ter anotado pelo menos um telefone..." Participou da reunião final com a cabeça nas nuvens. Ao meio-dia, resolveu abandonar o local. Alegou uma indisposição qualquer, que foi alvo de piadinhas maldosas quando ela deixou a sala. Foi direto ao restaurante do dia anterior, pensando que, com sorte, ele sairia antes do seu vôo e poderiam desfrutar alguns momentos juntos. Desta vez ela não se esqueceria de pegar o telefone. Mas ele não estava atrás dos ingredientes para as massas, onde imaginava encontrá-lo. Havia lá um senhor mais velho, com pinta de padeiro português. Descobriu ser o funcionário daquele turno. Aquele que ela queria pilotava os fogões apenas no turno da noite. Conseguiu apenas um número de telefone celular que não atendeu durante todo o período em que ela ficou aguardando no saguão do aeroporto. Ela poderia ter tentado por semanas, que não teria sucesso. Naquele mesmo dia, ele mudou o número do aparelho e também o modelo, adquirido de uma garotinha ingênua, numa loja do centro da cidade. Usou uma folha de cheque que pegou no meio do talão e uma nota grande que estava solta na carteira da moça que quis arrastá-lo para a cama na noite anterior. Até que ela tinha um charme, mas ele ainda achava que as mulheres eram apenas boas vítimas para as sua jogadas. Estreou o aparelho ligando para o namorado, que dava aulas numa academia chinfrim no mesmo bairro onde a moça, poucos minutos antes, tinha abandonado a última reunião da viagem.
(dito em 7/6/2006 03:21:31 PM )::
Quarta-feira, Maio 03, 2006
15 minutos
O sol batia forte, como sempre acontecia nessa época do ano. Às vezes soprava um vento, mas nada que pudesse amenizar o calor que fazia. E tudo ali estava quieto. Alguém que não conhecia aquele lugar poderia pensar que era tudo culpa do calor saarento, mas com pouco tempo descobriria que o normal por ali era aquilo: calor e marasmo. Está certo que naquele dia as coisas pareciam um pouco piores, até os pombinhos que costumavam fazer algazarra no telhado estavam mais murchos e calados. Ernestina devia estar limpando o balcão do bar pela décima vez no dia, apesar do movimento fraco. Enquanto passava o pano úmido, olhava pelo saguão daquele arremedo de rodoviária, para ver se tinha alguém por ali. Queria conversar sobre o capítulo de ontem da novela, mas o único que ela conseguia ver dali era o Reginaldo, que trabalhava no bar com ela e cochilava por detrás da máquina registradora. "Ele também não sabe nada de novela...", contentava-se, enquanto espichava o pescoço para procurar outra viv'alma. Talvez a Dolores, que limpava os banheiros ou a Maria das Graças, que vendia passagens no guichê da empresa de ônibus cor-de-rosa. Ninguém. Só mesmo o Reginaldo atrás da registradora. Terminou de secar o balcão e foi para dentro da cozinha, conferir se o pão de queijo estava pronto. Quando Ernestina voltou carregando o tabuleiro fervente com os pães de queijo, Maria das Graças já ocupava o seu lugar na cadeira velha do guichê, atrás do vidro riscado e poeirento. Ernestina sabia que aquilo era sinal de que um ônibus estava para encostar por ali. A discussão da novela ficaria para depois. Ajeitou os quitutes dentro da estufa desligada e foi secar os copos largados no escorredor. 4:15 da tarde. O ônibus em tons cor-de-rosa chia ao frear na plataforma da direita e acorda o Reginaldo, que resmunga algum palavrão incompreensível. Uns seis ou sete passageiros desceram junto com o motorista e alguns foram direto ao banheiro. Ernestina já imaginava que a quantidade de pão de queijo tinha sido superdimensionada. Não com essa palavra, mas ela sabia que poderia levar umas quitandas para casa, no fim do expediente. Seu pai ia gostar. Talvez até o cachorro comeria uma sobra. Um outro passageiro desceu do ônibus, que agora parecia estar vazio. Alto e forte. Meio gordo até, mas forte. Uma enorme mancha de suor estampava as costas da camisa vermelha amarrotada e semi enfiada por dentro da calça jeans surrada. Não havia nada de glamuroso nem de especial naquele homem, mas Ernestina gostou. Era bem o seu tipo. Suado e amassado, mas com tipo de homem. Posicionou-se rapidamente para atendê-lo, enquanto tentava arrumar o avental engordurado. Um pão de queijo e um Campari foi o pedido do sujeito. O quitute foi degustado aos poucos, mas a bebida foi virada numa talagada só. Sem cara feia, nem nada. Só um grande glupt. Macho mesmo, do jeito que Ernestina gostava e que era confirmado pelo olhar admirado da moça para o sujeito alto e forte. E meio gordo. Ela tentou puxar conversa com o homem, mas apenas soube que ele estava morrendo de calor e que o seu destino era a próxima parada do ônibus. A clientela já raleava por ali e também no guichê da Maria das Graças. Apenas um ou outro atrasado tentando um lanche ou uma passagem para sabe-se lá onde. O homem continuava lá, comendo o pão de queijo. Agora acompanhado por uma dose de café, servida num copo americano como cortesia por Ernestina. Ela ficou lá admirando, enquanto fingia limpar o balcão. Imaginou-se ao lado daquele homem seguindo viagem até o próximo destino. Hospedando-se em hotéis com banheiro no quarto e geladeira recheada de refrigerantes e cerveja. Recebendo rosas em lençóis de cetim. Ele a levando para jantares românticos e excursões à praia em um ônibus duas vezes maior do que aquele parado ali e que agora buzinava, chamando os faltosos. O homem enxugou o suor que escorria pela testa e virou-se para pagar a conta. Ernestina esperou ao menos um olhar de agradecimento pelo café, mas o homem apenas reclamou do calor, mais uma vez. Saiu direto para o ônibus. A mancha de suor nas costas pareceu ter aumentado. Ela esperou que ele se sentasse e jogasse um bilhete de amor pela janela. Ao menos um sorriso. Ela pode ver ele caminhar pelo corredor e sentar-se quase na última fila, mas do outro lado do ônibus. Morria ali a sua esperança. O ônibus engatou a ré e sumiu dali, deixando tudo no mesmo marasmo de antes. Ernestina ficou pensando que um príncipe ainda a levaria dali, em um ônibus de dois andares e ar refrigerado. Quem sabe o próximo que ali estacionasse. Enquanto isso, limpou o balcão mais uma vez, rapidamente, antes que a Maria das Graças sumisse novamente e não lhe contasse o final do capítulo de ontem.
(dito em 5/3/2006 05:15:36 PM )::
Sexta-feira, Março 24, 2006
Aqui mesmo tá bom, obrigado
Todos batiam à sua porta, mas ele teimava em não abrir para ninguém. Gostava de ficar ali olhando a bela vista da janela e vendo a TV. Vez ou outra ia à geladeira para buscar um congelado. Número 3 dessa vez. Eram todos numerados. Os pares para o jantar e os ímpares para o almoço. Seguia as orientações da nutricionista da NASA que ouvira outro dia num canal da TV. O interfone soou, incomodando mais uma vez. Dessa vez era o cara da pizza. Dispensou-o como já havia dispensado os outros que teimavam em desvirtuar o seu regime. Seu cardápio já estava montado e era o supra-sumo. Não necessitava desses modismos. O interfone lhe disse outro dia que havia um plano com mais 30 canais para a sua TV. Não deu ouvidos. No seu plano via até campeonato de futebol português, para que necessitava de handebol? Às vezes era a campainha que soava insistentemente, mas ele a ignorava, solenemente. E assim permaneceu. Não mudou nem quando passou a notar que o belo visual de sua janela começava a sumir. Lembrava-se que comprara um apartamento no último andar, com vista panorâmica. Agora os prédios vizinhos tiravam a sua paisagem e ele sentia cada vez menor a sua percepção. Somente quando se sentiu no térreo novamente é que ele abriu a porta. E saiu sozinho para um mundo que não conhecia mais.
(dito em 3/24/2006 05:19:23 PM )::
Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
Já olhou embaixo da cama?
Parecia não ter problemas. Genival era a imagem da felicidade, sempre rindo e divertindo quem estava por perto. Além de sempre ter uma palavra para passar a quem desejasse. Por ser assim, sempre estava por perto e era sempre solicitado. Naquele dia, Genival estava num churrasco, rodeado de amigos, cervejas e música. E foi ouvindo uma dessas que Genival se sentou. Um flash-back meio desconhecido, mas que fez com que ele se lembrasse de uma época que não existia mais e de coisas que estavam esquecidas na sua memória. Genival sentou e chorou. Na verdade caiu em prantos e soluços. Ninguém sabia o que fazer, já que aquela tarefa sempre coube a ele. Tentaram tirar aquele estilo de música e colocar um axé. Não funcionou. Água com sal, piadas fora de hora, abraços e beijos. Nada funcionou. Genival era a imagem da tristeza. As lágrimas caíram até que ele ficasse seco, fino e leve como uma pena. Foi aí que o vento soprou forte e aquele Genival voou para longe, de uma vez só. Hoje espalham cartazes e pagam até recompensa em dólares americanos. Mas ainda não houve quem conseguisse trazê-lo de volta. Ficou só o pó, guardado numa caixinha de papelão amarela, com detalhes em rosa e com a tampa levemente amassada.
(dito em 1/25/2006 10:38:04 AM )::
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
Lingüiças
O combinado era um churrasco. Então ele saiu de casa e comprou dois frascos de remédios para conjuntivite, uma coleira para o cachorro e dois drops sabor suave. Caminhou pela rua enquanto os carros buzinavam sicronizadamente e as nuvens formavam triângulos no céu. Parou na banca de revista e comprou um óculos com uma lente azul. Combinava com a piscina da varanda para onde seguiria. As mulheres adoraram o sabor suave e a coleira fez sucesso com as crianças que futricavam a porta do solarium. Embebedou-se e comeu uma asa de frango. Depois sorriu e dormiu de bruços na cama de solteiro rosa. Foi atacado por patos selvagens da Groenlândia durante o sono e precisou das gotas oftalmológicas. Voltou para casa de patins e não se sabe se alcatra era de boi jovem.
(dito em 1/17/2006 10:38:59 AM )::
Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
Lembranças daqui de longe
Quando ele a conheceu, tinha uns 12 anos e aparentava ter menos de 10. Ela tinha a mesma idade, mas parecia uma adolescente de 14 ou 15 anos. Toda saidinha, sentava-se junto com a turma do fundão da sala. Ele ficava na frente e, de vez em quando, dava uma olhadinha para ver o que estavam fazendo lá atrás. Mas uma olhadinha rápida, pois certa vez havia sido repreendido por um "o que é que você tá olhando?", que o deixou meio constrangido e temeroso de ficar observando mais atentamente o grupo lá da rabeira. Mas, mesmo assim ele olhava, pois era lá que ela se sentava. Ele imaginava que ela nem deveria saber da sua existência, mas ficava imaginando pegar na sua mão e passear com ela pelo pátio da escola. A primeira vez que viu um colega de classe ficar bêbado, foi numa festa de São João naquele mesmo ano. Até então, só havia reparado nas bebedeiras do pai e de sua turma, que vez ou outra, saíam cambaleando das festas e dos botecos. Mas, naquele dia junino, ele a viu tropeçar no vestido florido de retalhos, após tomar uns copinhos de quentão, escondida dentro do banheiro das meninas. Os outros garotos ficaram rindo, quando ela foi embora cambaleante, arrastada pela mãe, mas ele ficou com dó e teve vontade de ajudá-la a segurar o vestido, que teimava em enrolar nas suas pernas. E foi nesse mesmo dia que ela conversou com ele pela primeira vez, quando pediu para ele pegar um saquinho de pipocas para disfarçar o gosto da boca. Depois desse dia, ele passou a existir e tomou forma perante a garota, apesar de ainda ser só um menininho que sentava lá na frente e que a ajudava a resolver uns problemas de matemática de vez em quando. Mas, para ele, já foi um ganho enorme. Na festa de encerramento do ano letivo, ele a viu beber pela segunda vez e até recusou um gole da cerveja que ela bebia, novamente escondida no banheiro. E assim foram passando os anos e os dois sempre juntos. Até estudaram em escolas diferentes, mas sempre freqüentavam o mesmo grupo e as mesmas festas. Mas, ao contrário das posições na sala de aula, ela estava sempre à frente e ele no fundo, observando. Era assim nas festas, onde ele adorava ficar olhando o jeito como ela dançava, como ela bebia e como ela fumava. Às vezes, ela ia até ele e o puxava para dançar, mas, em poucos minutos, ele desaparecia e voltava à posição que acostumara. De lá ele viu os porres, os cigarros e as danças. Viu a entrada na faculdade, o primeiro baseado, os textos não publicados, o primeiro salário e as festas que ele proporcionou, os discos, as pipocas e as lágrimas no cinema, o carnaval em Salvador, o salto no Poção da Maromba, os luais em Morro de São Paulo, a inauguração do apartamento, com direito a champanhe francesa quebrada na porta e duas noites sem dormir. Também viu os beijos, as ficadas, os amassos e as lamentações amorosas. Só não viu o sexo, porque isso a sua posição não permitia. Como nas festas, às vezes ela ia buscá-lo para uma dança, mas ele sempre preferia permanecer no observatório e ficar no fundão da história. Um dia ela foi embora. Salário em dólares e benesses irrecusáveis. E ela se foi. Ele lá, mais uma vez, vendo tudo. O choro, as malas, o "ai, ai, ai, ai..." e a figura dela, daquela mesma menininha que sentava no fundo da sala e que tropeçou no vestido caipira, indo embora, entrando pelo portão 2 enxugando o choro. Naquele momento teve vontade de correr até lá e dançar com ela, uma música bem romântica e lenta, que demorasse uma semana. Poderia levá-la para casa e lhe dizer tudo o que estava engasgado durante todo esse tempo. Quem sabe ela não desistisse e lhe jurasse amor eterno. Viu o avião correr pela pista e sumir no céu. Viu-a depois em sonhos, os dois de mãos dadas a passear pelo pátio da escola.
(dito em 12/22/2005 05:15:48 PM )::
Sexta-feira, Novembro 25, 2005
Caminhos estranhos, não?
Enquanto ele tentava descobrir onde era a seção de vinhos, viu um vulto familiar passar com uma criança no colo e outra no carrinho. Passou rápido, mas ele viu que era alguém conhecido. Desviou o caminho que estava fazendo e foi atrás da aparição, que parecia ter pressa, devia ser pelo menorzinho, que parecia inquieto. Quando ela parou para pegar alguma coisa dentro da bolsa, ele pode chegar e resolver a dúvida:
- Adriana?
A mãe em apuros fez cara de espanto, mas retrucou a pergunta:
- Rogério?
- Isso. Nossa, quanto tempo, hein?
- É verdade.
- O que é que você anda fazendo? Você sumiu. Depois daquele fim de ano a gente nunca mais se encontrou...
- É... Tô por aí... Casada, com menino, você já viu, né?
- Tô vendo. - ele disse, reparando na rapidez com que as mãos da outra resolviam os problemas com as crianças e as compras. - Mas, e a faculdade, já formou?
- Faculdade? Nem cheguei a entrar... Sabe como é, casei logo depois daquilo e já veio filho, marido... Serviço de casa não é mole...
- Poxa, perdemos uma grande psicóloga, então. Mas, você desistiu de vez?
- Não sei, né? Acho meio complicado agora. Quem sabe depois que os meninos tiverem um pouco maiores... E você? Já é o brilhante advogado que gostaria?
- Quase. Terminei a faculdade agora. Vou fazer o exame da Ordem no fim do mês, mas já estou trabalhando como assessor num escritório grande lá no centro.
- Que bom. Boa sorte na prova. Deixa eu ir agora, pois acho que ainda vou ter que trocar uma fralda, depois de passar no caixa.
Trocaram um desajeitado beijo de despedida, pois o pequeno do colo parecia mais agitado. O maiorzinho, no carrinho, nem se tocou da conversa, estava concentrado em um potinho de iogurte de pêssego. Saíram cada um para um lado, ela em direção ao caixa, ele em direção aos vinhos, que encontrou cinco corredores à frente. Caprichou num francês mais requintado, para combinar com o encontro, que prometia. Seguiu para o caixa e da sua fila conseguiu ver a sua amiga lutando com o carrinho de compras e com os filhos. O maior agora parecia insistir em levar o carrinho cheio de sacolinhas, enquanto o outro continuava a agitação no colo. Ficou pensando no rumo que as suas vidas tomaram depois daquela festa de fim de segundo grau. Ela era até bonitinha, a noite que passaram juntos na véspera da festa até que havia sido boa, mas agora ela estava meio caída, certamente pelos filhos, que contribuíram para deixá-la naquele estado. Não imaginava como ela pode casar tão cedo, era tão cheia de planos para a faculdade e para o futuro e agora estava ali, naquela luta de dona de casa. Viu ela sair pela porta do supermercado no mesmo momento em que a moça do caixa registrava o seu vinho.
A moça saiu do local em direção ao carro, pensando em consultórios de psicologia, em baladas pela madrugada e em jantares à luz de velas, regados por vinhos franceses. Mas, o filho que teimava em pilotar o carrinho a trazia de volta à realidade toda vez que quase esbarrava em alguma coisa. Pensou em dar-lhe uma bronca, mas deixou tudo por isso mesmo. Enquanto guardava as compras no carro, pensou até em falar-lhe que aquele rapaz que havia conversado com a mamãe no supermercado era o seu verdadeiro papai. Mas o menino não ia entender nada. Nem mesmo ela entendia aquilo direito. Deixa tudo como está mesmo. Ligou o carro e foi embora, o marido devia estar esperando para irem na casa da avó.
(dito em 11/25/2005 05:41:02 PM )::
Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Do outro lado da rua
Ele morava no apartamento V daquele prédio antigo, de portas pantográficas. Era romântico, gostava de ouvir boleros e ler os clássicos. Vestia-se socialmente e gostava de tomar o chá, às cinco.
Ela usava sempre jeans e vivia ouvindo rock inglês. Bebia vodka e adorava ler histórias em quadrinhos do Spider Man, enquanto fumava na janela. O seu apartamento era o 5, no prédio de frente, de arquitetura moderna.
Ele a espiava na janela e adorava o jeito como ela balançava o cabelo enquanto dançava, ouvindo aquelas músicas altas. Ela achava interessante o modo como ele lia, compenetrado, enquanto sorvia a bebida fumegante.
Mas nunca se encontraram além das janelas. E nem descobriram que as suas portas tinham o mesmo número.
(dito em 10/14/2005 01:48:48 PM )::
Sexta-feira, Setembro 16, 2005
Ciclone extra-tropical
Supletivo, Mobral ou coisa que o valha. Inácio estava lá, sentado no fundo da sala de paredes sem reboco e com um quadro improvisado na frente. A professora de óculos, mirradinha num vestido surrado, falava alguma coisa sobre História do Brasil. Inácio não prestava muita atenção naquele som. Entrava apenas como um zunido em seu ouvido, enquanto ele pensava na mulher e nas crianças que tinham ficado para trás. Recostado na pequena janela de pintura gasta, ele olhava para o lado de fora, para a rua escura, iluminada apenas por um poste de madeira puída, que sustentava uma lâmpada piscante, que apagava de tempos em tempos, deixando apenas o clarão da lua a iluminar aquele pedaço de fim de mundo. Alguns companheiros de aprendizado dormiam pelos cantos da sala. A professora já nem ligava mais para a falta de platéia. Apenas cumpria o plano diário a que ela se propunha, sabendo que a situação dos que ali estavam não era melhor do que a sua. Nada daquilo ali existia na cabeça de Inácio naqueles momentos nostálgicos em que lembrava do seu povo. Imaginava a mulher na porta do casebre que ficava do outro lado da praça, enquanto os meninos corriam por aquela rua empoeirada. Mas sabia que aquela ali não era a sua terra. Ali ele não tinha ninguém. As pessoas que ali estavam não faziam parte de sua vida. Nenhum daqueles alunos, nem aquela professora que teimava em falar com as paredes. Inácio não falava com ninguém, nem mesmo com as paredes ou com o poste de madeira do outro lado da janela. Sua vida, desde que chegou ali, era apenas lembrança e trabalho. Comunicava-se apenas o suficiente para ganhar o seu dinheiro. Era só para isso que ele estava ali. Conversa, para ele, era apenas aquela que ele tinha com o seu povo. Os causos jogados nas longas rodas de bate-papo, enquanto os meninos brincavam e a mulher preparava a comida, vindo, vez ou outra, participar da prosa. Mas, onde ele estava, tudo parecia morto. Bastava olhar para dentro daquela sala encardida e para aqueles que ali jaziam. Ou olhar para fora da janela e ver o marasmo e ouvir o silêncio. A professora parou de falar por um momento e passou a escrever coisas no quadro. Inácio olhou desanimado para aquela cena, enquanto o número de cochilos aumentava, devido ao silêncio dominante. A luz do poste apagou mais uma vez, deixando a rua à mercê da lua. Um vento forte soprou repentinamente e fez balançar os galhos das poucas árvores que resistiram naquela imensidão de terra abandonada. Inácio ficou vendo pela janela a luz da lua ser ofuscada pelas nuvens pesadas que vieram com o vento. E também viu quando grossos pingos de chuva começaram a desabar sobre o lugar. Pensou em pular aquela janela e correr por aquele terreno vazio, deixando a chuva molhar o seu corpo e acabar com aquele torpor. Pensou em gritar bem alto o nome da sua mulher e dos seus filhos, para que o vento forte, que continuava a balançar as árvores, levasse o seu grito para que todos de sua terra ouvissem a sua voz. Talvez ele corresse bastante e, impulsionado pelo mesmo forte, alcançasse o lugar onde desejava estar naquele momento, livre daquela enorme corrente que o prendia ali. Mas Inácio não fez nada disso. Apenas fechou a janela e engoliu, seco, o silêncio e a realidade.
(dito em 9/16/2005 05:24:14 PM )::
Sexta-feira, Setembro 09, 2005
Equações
Matemática. Esse era o problema. Por mais que se esforçasse não conseguia entender toda aquela parafernália numérica. E isso gerava um outro problema. Professoras prestativas que vinham ao seu socorro terminavam por fisgar-lhe o coração de menino. A última sugeriu-lhe aulas particulares na sua casa. Ele fantasiou encontros amorosos e beijos na boca. No dia combinado, partiu em direção à casa da amada professora. Era um edifício no centro, numa rua estreita, cheia de arvorezinhas recém plantadas. Entrou pelo prédio e o porteiro nem perguntou o destino do fedelho. Ao entrar no elevador, abriu mais uma vez o envelope com o endereço para confirmar o apartamento da sua musa. Viu o número do apartamento escrito como um IX. Malditos romanos. Nunca conseguiu decorar aquelas letrinhas que significavam números. O painel do elevador mostrava apenas os números que ele conhecia. Não sabia a relação daqueles arábicos com o romano que ele tinha no papel. Não sabia se o apartamento era o 14, o 19 ou o 45. Podia arriscar um andar e procurar aquele símbolo pelas portas, mas teve medo de vagar por corredores escuros. Poderia, também, descer e perguntar ao porteiro de bigodes. E se ele o dedurasse? Apertou o botão do último andar, para que pudesse ter tempo de pensar em algo. Subiu e desceu sem resolver o conflito. Descobriu, apenas, não ser merecedor da paixão de uma professora de matemática. Não sabia nem o que aquele simples IX significava. Guardou o papelzinho no bolso e saiu murcho pela portaria. Viu que ainda tinha muito o que aprender antes dos prazeres dos beijos. Pediria à sua mãe para arrumar-lhe aulas particulares de matemática com o professor de sua irmã, para que ele pudesse mostrar progressos para a professora. Quem sabe ela não o convidaria novamente? Ele até poderia fazer a tabuada do 7, escrita em romanos, antes dos abraços românticos e dos beijos gozosos.
(dito em 9/9/2005 03:54:42 PM )::
Segunda-feira, Setembro 05, 2005
Deixando tudo
- Deixa eu ligar o pisca-pisca?
Esse foi o último pedido da menina dentro do carro, antes de entrar no estacionamento do restaurante. O pai atendeu, como já havia feito ao deixá-la tirar o cinto de segurança e andar no banco da frente.
- Você quer escolher a mesa, meu amorzinho?
- Queria ficar perto daquela janela ali. - disse a menininha, enquanto apontava para uma janela no canto do restaurante, que dava para a rua.
- Hoje você é que manda. Nesse jantar você será a chefe.
A menina riu, pois achou que ser chefe era coisa de gente grande.
- Então eu vou querer tomar um guaraná, posso?
- Já disse que hoje você é a chefe.
- É mesmo... Então vou querer um guaraná.
- E para comer?
- Vou querer lasanha.
O pai achou que iriam comer uma fritada de camarão, que era o que ela sempre pedia naquele restaurante, mas concordou, meio a contra gosto, com o pedido da filha.
- Ok, senhora chefe. O pedido será feito.
Chamou o garçom e fez o pedido: lasanha para dois, um guaraná e uma dose de uísque, sem gelo.
Quando as bebidas chegaram, a garotinha estranhou:
- Ué, pai, você também vai tomar guaraná?
- Não. Essa aqui é bebida de gente grande. E aposto que o seu guaraná é melhor.
A menina não conhecia a outra bebida, mas concordou assim mesmo com o pai, tomando o copo do refrigerante quase de uma vez só.
A lasanha veio após algum tempo e se fartaram do prato. Antes de pedirem a sobremesa, o pai pediu mais uma dose de uísque, que virou numa talagada só, assim que ela chegou na mesa.
- Senhora chefe, pode escolher a sobremesa. Eu vou ali no banheiro.
- Pode ser sorvete?
- O chefe é que manda.
- Então vou pedir um sorvete de morango.
- Tá certo. Vou só ali no banheiro.
Ele saiu da mesa e foi até o banheiro. No caminho, encontrou o garçom que servia a sua mesa. Chamou-o num canto longe da vista da garota. Entregou-lhe um número de telefone e deu instruções para que ligasse para a mãe da menina. Tirou duas notas de cinqüenta e colocou na sua mão. Sabia ser suficiente para a conta. O garçom, incrédulo, não soube o que dizer, apenas balançou a cabeça afirmativamente. O pai, antes de ir embora do restaurante pela porta lateral, deu uma olhadela de despedida para filha e fez um último pedido ao garçom:
- Leve um sorvete de morango para ela. Duplo.
Ouviu o primeiro tiro, que lhe pareceu um tanto distante dali, mas sabia que haveria outros e que certamente tornariam-se mais próximos. Roseno então aproveitou para enfiar mais adentro naquele buraco sujo. Bateu a cabeça num pedaço duro de sabe-se lá o que e soltou um palavrão. O cheiro era forte ali dentro, mas ele já andava acostumado com a podridão de lugares como aquele e nem incomodado ele ficava mais. Ficou ali socado, com aquela água suja pingando na suas costas e escorrendo até a sua nuca. Foda-se!, ele pensava baixinho, sem se preocupar muito com toda aquela pingação. Roseno, que na verdade não era Roseno. Era Admilson, filho do seu José e da dona Ziquinha. Morador da Rua das Gardênias, de profissão pedreiro e ajudante geral. Mas também fazia bicos de qualquer coisa, se lhe dessem alguma retribuição. Bom moço e religioso, casado na igreja com a Rita de Cássia e pai de Tarcísio Meire, em homenagem ao homem da TV. Desde o dia em que um bando de vagabundos entrou em sua casa e, assim do nada, deram fim no seu filho, ele nunca mais foi o mesmo. Surtou. Saiu de casa naquele mesmo dia e nunca mais voltou. Nem nos rituais fúnebres do filho ele compareceu. Tá na rua desde então. E foi aí que abandonou o nome e passou a viver com o nome do filho morto: Tarcísio. Usou esse nome por um tempo até ver que o homem da TV não merecia a sua homenagem. Muito menos o filho morto. Foi aí que surgiu o Roseno. Nomeou-se em homenagem ao malandro que era vizinho da sua avó, quando ele pequeno e morava lá no Piauí. Roseno Jóia. Malandro profissional que andava com três pulseiras de ouro em cada braço. Aquele era um cara em que merecia uma homenagem de um vagabundo que nem ele era hoje. E assim ficou sendo Roseno, mas um Roseno sem graça e inútil, que agora estava enfiado num buraco fedorento no meio do nada, encantoado e entocado como uma barata. Ouviu outro tiro e, como previu, pareceu estar mais próximo. Naquele momento, Roseno teve mais medo, encolheu-se mais um pouco e agora podia sentir a água pingar direto na sua cabeça. Roseno continuou ali no seu destino de barata. Imaginava como estaria vivendo Rita de Cássia. Não gostava de pensar nela, fazia se sentir mais fraco e pior do que já era. Mas nessas horas ele se lembrava de casa, da comida, da cama e das carnes quentes de Rita de Cássia. Roseno nunca mais tinha tido uma mulher, nem mesmo uma daquelas bêbadas nojentas que ele costumava acompanhar nas buscas de comida por aí. O máximo que Roseno se permitia era passar horas observando o entra e sai de mulheres cheirosas e limpinhas na porta dos shoppings ou dos prédios de escritórios. Voltava pela noite àqueles lugares e ali mesmo dava vazão à sua imaginação e ao prazer solitário enrolado naquele pano velho que o acompanhava pelas ruas e que se tornava cada vez mais imprestável. Depois ele chorava e se lembrava de Rita de Cássia e das juras do matrimônio. Aí saía pela rua de novo e procurava alguém que compartilhasse um embriagante qualquer. Mas agora Roseno estava lá naquele buraco, que mais parecia um chiqueiro igual ao que a sua avó tinha lá no Piauí. Bom lugar era aquele. Ouviu mais um estampido, dessa vez o tiro pareceu ter sido deflagrado ali ao lado. Além da água caindo na sua cabeça, Roseno agora ouvia vozes e passos, cada vez mais próximos. A sua fraqueza e o seu medo aumentaram até o ponto em que ele surtou mais uma vez. Teve vontade de sair dali e mostrar o peito, mostrar a cara para que o tiro entrasse certeiro e acabasse de vez com toda aquela vida que ele levava. E foi o que ele fez, se livrando da imundície daquele buraco e do fedor daquela água. Viu os vultos que faziam aqueles sons que até agora há pouco lhe causavam o pânico. Deu para perceber que eram os mesmos que ele havia roubado algumas vezes e que tinham lhe ameaçado outras dezenas. Ouviu algumas palavras que lhe foram ditas, mas aquilo tudo não interessava mais a ele. Roseno só teve vontade de levantar os braços e olhar para cima, talvez pedindo piedade e um bom destino. Foram apenas dois tiros. Roseno agora tinha a cara e a barriga perfuradas. E era isso que intrigava aquela jovem estudante que olhava aquele cadáver estirado sobre a mesa da sua aula de anatomia.
(dito em 6/24/2005 11:12:35 AM )::
Sexta-feira, Junho 03, 2005
Você estará entrando na mais feliz das vidas
A garota de grandes olhos amendoados que havia lhe servido naquela lanchonete trouxe a conta, que ela pagou com umas moedas que trazia no bolso. Não havia sido nada de mais aquele café da manhã, mas pelo menos aquele quitute desconhecido tinha lembrado algo que parecia o sagrado pão de queijo que comia quase todos os dias na padaria da esquina da sua casa. Saiu pela rua em direção ao metrô, que não ficava muito distante dali. O movimento naquela hora ainda era pequeno e poucas pessoas acompanhavam o seu trajeto. Ela aproveitou para acender um cigarro e fumar o primeiro do dia, que durou até a entrada da estação. Comprou o bilhete, desceu mais um lance de escadas e ficou esperando o próximo trem, que não demorou a passar. Conseguiu um lugar próximo da porta de entrada e sentou. Notou olhares em sua direção, vindos de um rapaz que estava em pé, alguns metros adiante. Bonito e alinhado, o moço lançava olhadelas discretas por cima do jornal que segurava com uma mão só e teimava em não ler. Na estação seguinte, o acento ao seu lado ficou vago e, não demorou muito, ele veio ao seu encontro, sentando-se ao seu lado:
- Seu nome é Debbie?
Debbie, Debbie, ela não sabia porque, mas aquele nome lhe parecia familiar.
- Não. Meu nome é Paula.
- Você parece muito uma garota com quem eu estudei na High School e se chamava Debbie.
- Ah, não. Impossível. Eu sou brasileira.
- Brasileira?
- Isso. Por que o espanto?
- Nada. Eu gosto dos brasileiros, mas nunca havia conhecido nenhum.
- Então como você pode gostar?
- Não sei. Por causa da fama, acho.
Ela ficou lá imaginando que a fama devia atender pelo nome de Gisele Bündchen ou outra brasileira gostosa da vez.
- O que você faz por aqui? Férias?
- É. Mas vou ficar apenas uma semana.
- Que pena. Uma semana não dá para conhecer nada por aqui.
- É... Imagino.
- Você chegou hoje?
Por dois segundos ela ficou sem saber.
- É. Não. Ontem. 10. É, foi ontem. Mal cheguei e já tô meio perdida. Deve ser o fuso.
Ele riu. Parecia ser uma pessoa legal. Além de bonito e elegante. Richard era o seu nome. Enquanto o destino dos dois não chegava, ficaram lá papeando. Ela até se surpreendeu com o seu inglês. Antes de viajar não imaginava que pudesse ter uma conversa como aquela, mas agora sabia que aquelas aulas intensivas chatas de sábado tinham trazido bons resultados. Conversaram sobre amenidades, sobre o Brasil e sobre viagens. Quando chegou o ponto em que ela iria descer, ele resolveu descer junto.
- A minha é um pouquinho para frente, mas é só uma pequena caminhada. Posso descer aqui com você?
- Lógico. Você está indo trabalhar?
- É. Mas estou com tempo. Dá para nós conversarmos mais um pouquinho. E você onde vai?
- Um amigo meu me pediu uma coisa e eu quero comprar hoje, para não me preocupar mais com isso.
Caminharam até a galeria onde ela deveria comprar a encomenda. Era próxima da estação, mas ela estava fechada. Abriria dali a uma hora.
- Agora eu que vou com você até o seu trabalho, para gastar o tempo. Posso?
- Sem problemas.
Realmente a caminhada até o trabalho dele foi pequena e pareceu passar mais rápido, pois os dois continuavam a conversar cada vez mais animadamente. Pararam na porta do prédio onde ele trabalhava.
- Você já subiu?
- Ainda não.
- Quer aproveitar a carona?
- Não. Vou deixar para o último dia. Quero ver do alto por onde eu andei pela última semana. Acho que vai ser mais legal analisar tudo de cima e tentar achar cada caminho que eu fiz.
- É uma idéia interessante. Mas eu tenho de subir agora. Podemos nos encontrar depois, o que você acha.
- Por mim, está ótimo.
- Podemos almoçar logo mais?
- Mas como vamos nos encontrar?
- Pegue aqui. - ele disse, enquanto tirava o telefone celular do bolso da calça. - Eu não vou precisar dele agora pela manhã. Depois eu te ligo e a gente combina o encontro. Pode ser?
- Mas ?!?
- Não tem problema. Pode ficar. Vai ser mais fácil e ainda assim arranjo um jeito de você não escapar.
Ela riu meio sem jeito, mas adorou a iniciativa dele.
- Eu não ia fugir.
- Pode ficar com ele. Agora tenho que ir. Só o mantenha ligado, a bateria não está cheia, mas vai durar até na hora do almoço, com certeza. Mas se quiser usá-lo também não tem problema.
- Não. Não vou usar. Vou ficar aguardando a sua chamada.
Ela guardou o celular na bolsa, enquanto ele entrou pelo saguão, não sem antes virar e confirmar a ligação.
- Daqui a pouco eu ligo.
Ela riu e fez um pequeno aceno com a mão, confirmando o entendimento da mensagem. Ficou ali parada por um instante e resolveu caminhar pelas redondezas antes de voltar à galeria e à encomenda. Saiu andando e vendo as lojas, os prédios e o movimento na rua. Parou numa esquina, acendeu o segundo cigarro do dia e viu um caminhão dos bombeiros que fazia algum serviço em um bueiro no meio da rua. Ficou ali olhando aquela cena, até ouvir o barulho ensurdecedor que vinha do alto. Olhou para cima, procurando a fonte daquele zunido e viu o avião enorme passando numa altura que tinha certeza que não era normal. Acompanhou a aeronave até o momento em que a viu espatifar contra o prédio em cuja base ela estava há poucos minutos atrás. Viu e ouviu a explosão da batida e ficou sem entender o que poderia estar acontecendo. A multidão começou a se formar e o burburinho tomou conta daquele lugar. Ela lembrou do seu amigo Richard e pôs-se em direção ao prédio. O movimento agora era intenso e sirenes começavam a circular em profusão. Não conseguiu chegar próximo ao prédio, pois a polícia e os bombeiros já haviam cercado as proximidades do prédio. Tirou o celular da bolsa e ficou aguardando algum contato, mas o aparelho permanecia mudo. As chamas tomavam conta do alto do prédio, onde ela queria estar no final da viagem. Começou a mexer na agenda do telefone, tentando achar algum telefone para o qual ela pudesse ligar. Tentou em um número Office, mas a ligação não completou. Não viu nenhuma luz em algum outro nome ali guardado. Ficou aguardando o barulhinho do telefone e nada. Ouviu foi um outro barulho, de nova batida e nova explosão, dessa vez na torre ao lado daquela que já queimava. Ali naquele momento é que ela caiu na real e notou a dimensão da tragédia que ela presenciava. Teve vontade de ir embora correndo dali. Mas aquele pequeno telefone celular na sua mão a impedia de sair dali. Temia perder o sinal e não mais conseguir contato. Impotência. Era o sentimento mais forte que ela tinha agora. Fumou o terceiro e o quarto cigarros de uma tacada só. Permaneceu aguardando até ver a primeira torre desmoronar igual àquelas implosões que via na TV quando criança. Era inacreditável, mas era verdade. Teve de correr para escapar da fumaça e se distanciou um pouco mais dos prédios. E o telefone em suas mãos teimava em permanecer mudo. Ficou mais preocupada quando começou a ouvir comentários dizendo que o sistema de comunicação estava um caos, que nada funcionava. Olhou para o aparelho em suas mãos e não viu mais os indicadores de sinal. Havia apenas um pequeno risco que marcava a carga da bateria, que parecia se esvair mais rápido sem a presença do sinal. Viu o marcador da bateria também sumir completamente algum tempo depois que a segunda torre se estabacou no chão. Não podia fazer mais nada e a única vontade que teve foi de chorar, que foi o que ela fez em quantidades homéricas enquanto acendia o quinto cigarro do dia e pensava numa maneira de ir embora dali.
...
Quinta-feira, 13/09
Triiim, triiim, triiim...
O telefone celular fica tocando enquanto a garota dos olhos amendoados abre a bolsa para pegá-lo.
- Alô.
- Alô. Quem está falando? É a Paula?
- Não. Ela deixou esse telefone comigo. Quem está falando aí?
- Richard. O dono do telefone.
- Pensávamos que você havia morrido.
- É... Muita gente pensou, mas não foi dessa vez. Eu não estava tão no alto assim... Mas cadê a Paula, está aí com você?
- Não. Ela foi embora pra Miami ontem e deixou o telefone comigo. Eu trabalho numa lanchonete aqui perto do hotel onde ela estava e ela viu que eu tinha um aparelho da mesma marca. Então ela pediu que eu levasse o telefone para casa e carregasse a bateria, quem sabe não teria boas notícias. Agora estou vendo que ela estava certa.
Ele concordou, mas ficou decepcionado pela partida da outra.
- Ela não deixou nenhum telefone, nada?
- Comigo não. Às vezes no hotel você consegue algo.
- Posso tentar.
A garota passou o endereço da lanchonete para que ele fosse buscar o aparelho. No outro dia pela manhã ele entra pelo recinto procurando a garota que estaria com o seu telefone abandonado.
- Debbie?
Era ela, a amiga da época do High School, com os mesmos grandes olhos amendoados que o hipnotizavam. Permanecem juntos desde então. E combinaram que quando tiverem uma filha darão a ela o nome de Paula, aquela que nunca mais foi encontrada.
(dito em 6/3/2005 04:17:50 PM )::
Segunda-feira, Maio 16, 2005
Liberdade
Conheceram-se num restaurante. Maria Lúcia num almoço de negócios da empresa onde trabalhava e Hugo num almoço de confraternização com a turma de amigos. Ele se encantou pela moça que lançava olhares espirituosos em sua direção. Convidou-a para sair ali mesmo, após ela ter terminado a sobremesa de morangos. Maria Lúcia aceitou o convite para um jantar qualquer dia desses e encantou-se pela caneta que ele usou para anotar o número de seu telefone. "Comprei em São Paulo", ele disse, antes de tirar um cartãozinho de apresentação do bolso e passar para ela. Sócio-proprietário, telefones de contato e número do fax. No mesmo dia ele ligou e marcou o encontro, mas ela não pode ir, pois o gerente regional ainda estava por aí e necessitava de paparicos empresariais. Marcaram para o outro dia. Desta vez Maria Lúcia compareceu e ficou mais uma vez encantada com o romantismo e a elegância de Hugo. Motel na sobremesa, com banheira de hidromassagem e champanhe francesa. Um luxo. Em menos de um mês, Maria Lúcia já ocupava uma parte no armário da casa de Hugo. Em três meses já ocupava em definitivo a metade da cama de casal. Hugo era um gentleman, um homem de uma finesse incomensurável. Saíam quase toda noite para restaurantes e vez por outra passavam o final de semana em São Paulo. Era o ápice. Restaurantes caros, hotéis estrelados e lojas de grife. Nesse ritmo viveram mais algum tempo até o dia em que Hugo pediu para Maria Lúcia largar o emprego, porque afinal de contas era uma moleza para ele sustentar aquela vida para os dois. Foi a primeira vez que ela não gostou de uma atitude dele. Negou-se a atendê-lo e causou o primeiro mal estar no relacionamento, que aumentou quando ela teve que fazer uma viagem pela empresa. Na volta Hugo a recebeu aos gritos."Sua isso, sua aquiloutro". Impropérios foram bradados em alto e bom som e fizeram Maria Lúcia sair de casa pela primeira vez. Desculpas e flores a trouxeram de volta na noite seguinte. Tudo como era antes. Restaurantes e viagens paulistanas. Num belo dia de estresse e de saco cheio da vida de assalariada, Maria Lúcia aceitou a proposta de Hugo e comunicou o abandono do emprego numa empolgada noite de motel. Hugo agora se sentia o senhor completo da situação. E assim foi até o dia em que Maria Lúcia se cansou de não fazer nada e disse que procuraria um emprego. Hugo voltou aos impropérios e Maria Lúcia novamente saiu de casa. Dois dias dessa vez. E no terceiro Lá estavam as rosas e as novas juras de amor. Novo retorno, noites mais calientes e programas diversificados. Mas tinha o emprego que Maria Lúcia, na surdina, continuou a procurar e achou para desgosto do companheiro. O comunicado foi seguido de xingamentos nunca antes proferidos, ameaças de descabelamento generalizado e utensílios domésticos em cacos. Três dias de afastamento foi a conseqüência do imbróglio. Mas ela voltava cada vez mais servil e ele cada vez mais cavalheiro. No dia em que ela foi sozinha a uma festa da empresa, ele a recepcionou com um tabefe que ecoou pelo corredor do andar onde moravam. Maria Lúcia já estava meio bêbada e cravou-lhe as unhas nas costas, na altura dos ombros, que fez verter um pequeno filete de sangue que escorreu até a cueca samba canção dourada que ele trajava. "Piranha!". "Covarde!". Os olhos vermelhos e a pulsação elevada denunciavam o ódio que pairava no ambiente. Hugo passou o dedo pelo ferimento que ardia em suas costas e viu o sangue que escorria por ali. Foi em direção a Maria Lúcia, segurou os seus cabelos com força e enfiou o dedo em sua boca, fazendo com que ela lambesse o sangue ali depositado. "Limpa isso aí, sua vaca!". O ódio foi transformado em excitação quando ela passou a sorver com gosto o dedo e depois passar para as costas machucadas. Transaram ali mesmo no corredor, sem a menor preocupação com os vizinhos do 81. Maria Lúcia agora nem precisava mais sair de casa e retornar para que o clima ficasse em alta. Agressões mútuas se tornaram uma constante, bem como as novas viagens para São Paulo. Chegaram a passar um mês por lá, depois de uma briga que causou uma leve fissura no dedo anular de Hugo. E depois de um hematoma quilométrico na coxa esquerda de Maria Lúcia, chegaram a inovar e passar um romântico fim de semana prolongado em Buenos Aires, ao som de tangos de Gardel e vinhos de Mendoza. Até que um dia Hugo chegou em casa com uma espada de lâminas finas e afiadas. Coisa de samurai, comprada num antiquário em São Paulo, donde ele havia acabado de regressar em viagem solo. Maria Lúcia não havia gostado de ter ficado esquecida por ali, enquanto o outro fazia os programas do casal. Não adiantou ele ter justificado a viagem de negócios. Ela partiu com voracidade para cima dele, munida com uma reles faca de mesa que usava para passar geléia na torrada levemente salgada. Ele não titubeou e usou a lâmina japonesa com a precisão de um mestre jedi. O que era para ter sido um pacto de amor e sangue entre os dois, com toda a pompa e requinte que o instrumento pedia, se transformou num simples e corriqueiro ato de morte. Maria Lúcia agora estava ali caída no meio da cozinha, envolta por uma poça de sangue da cor de vinho e uma faca suja de geléia de framboesa na mão quase pálida. Hugo ficou ali parado com a espada nas mãos por um bom tempo, antes de procurar um pano de linho velho para limpar o chão. Nem se preocupou em arranjar um bom advogado para livrar-lhe das acusações que a Procuradoria iria ilhe imputar. Achava que a sua vida não teria mais graça a partir de então e que ele poderia muito bem viver ali ou encarcerado num presídio malcheiroso qualquer. Se bem que talvez ainda tivesse uma pequena sorte e cumprisse pena em São Paulo, capital.
(dito em 5/16/2005 03:19:29 PM )::
Sexta-feira, Abril 22, 2005
Recuerdos e ufologismos
O barulho dos carros e das pessoas que transitavam pela rua naquela hora já era escutado na varanda do apartamento. Foi para lá que Sinval se dirigiu, juntamente com uma lata de cerveja e um copo de vidro. Sentou-se na cadeira de plástico, encheu o copo com dois terços de líquido e um terço de espuma. Colocou a cerveja no chão, esticou as pernas e passou a observar o movimento do sábado à noite que havia se formado lá embaixo. Luzes, gente, vozes, música. Aquilo tudo distraía Sinval e o deixava meio hipnotizado, era como se fosse um alucinógeno, que tinha o seu efeito aumentado à medida que também ia aumentando a quantidade de álcool. Talvez fosse só isso, o álcool, mas ele imaginava que o poder em seus sentidos era causado pelo frisson que vinha lá de baixo e pelas lembranças que aquilo tudo trazia. Naquele dia o movimento estava acabando mais cedo que o costume, nem música podia se ouvir mais lá de cima. Devia ser o fim de mês ou feriado da próxima semana. Sinval aproveitou a ida à cozinha para buscar mais uma cerveja e trouxe um pequeno radinho de pilha. Decidiu ligar o aparelho em uma rádio AM. Queria escutar umas músicas diferentes e ouvir as participações dos ouvintes. Era divertido aquilo, também trazia outras diferentes lembranças. As cervejas foram se sucedendo e o movimento nas ruas agora era bem fraco. Sinval continuava lá da mesma maneira, ouvindo pacientemente as histórias contadas no rádio. Distraído estava com os pitorescos relatos trazidos pelas ondas do rádio, que nem notou quando uma luz colorida aproximou-se da varanda do seu apartamento, trazendo com ela um objeto metálico que se estabacou contra a parede lateral da varanda. O susto fez Sinval quase cair da cadeira e jogar a metade da cerveja no seu short azul de algodão. "Merda", ele disse enquanto tentava limpar a cerveja do calção e entender o que havia acontecido. Ao levantar da cadeira e olhar para trás, Sinval viu o objeto, que rodopiava no canto da varanda. Ainda emitia uma luz fraca, mas que sumiu completamente quando o objeto parou de girar. Sinval ficou olhando para aquilo sem saber o que fazer. De onde teria surgido aquela coisa? Pensou que poderia um brinquedo desses modernos, de controle remoto, ou um aeromodelo descontrolado que alguém perdeu por aí. Ficou de longe olhando para aquilo sem saber o que fazer. Chegou perto da coisa e resolveu apanhar o brinquedinho. Era um verdadeiro mini disco voador. Tinha o formato de um disco, achatado nas bordas, mas gordinho no meio. Era do tamanho de uma tampa de privada. Lâmpadazinhas circundavam toda a circunferência do objeto. Procurou inscrições ou informações do que poderia ser aquilo, de onde veio, qual a fabricação. Não achou nenhum made in. Procurou um botão de liga e desliga. Nada. A única coisa que viu foi uma espécie de alavanquinha que ficava por baixo do objeto e que tinha um desenho parecido com o emblema do Corinthians. Puxou a alavanca e a tampa do negócio se abriu de uma vez só, o que fez Sinval jogar aquela coisa no chão. Ficou mais uma vez olhando de longe, esperando alguma coisa sair lá de dentro, talvez homenzinhos verdes com armas de raio laser ou insetos com capas vermelhas e sabres de luz. Nada. Só um pouco de fumaça que logo se dissipou. Viu algo lá dentro que lhe pareceu familiar. Foi chegando perto e viu, toda dobrada e amassada, a sua camisa de festa. Aquela da sua adolescência, de quando começou a sair de casa para as festinhas e baladas. A camisa que estava usando quando deu o primeiro beijo na boca de sua vida e quando fumou o primeiro cigarro, escondido, na festa de 15 anos da sua prima Sirlene. Tinha até o pequeno furo que a brasa desse mesmo cigarro fez no punho da manga esquerda. Nem se lembrava do que tinha acontecido com aquela camisa. Se ficou pequena, se ele deu para alguém, se sua mãe doou para os pobres ou para os velhinhos. O fato é que ela estava ali de novo, trazida por aquela maquininha voadora. Boas lembranças vieram com a camisa, conseguiu até sentir o cheiro do perfume que usava na época. Ficou ainda ali pela varanda por mais duas latinhas de cerveja. Estava admirado com aquilo tudo, apesar de não ter nenhuma explicação lógica. Mas também não estava em condições de procurar explicações lógicas e tampouco queria descobrir algo. Antes de resolver ir dormir, pegou tudo aquilo e guardou na despensa, dentro de um cesto de roupas aposentado. Não contou o acontecido a ninguém. Teria certeza que o taxariam de maluco, talvez até cogitassem a sua internação num Pinel desses da vida. Porém agora, todo dia Sinval gastava alguns bons minutos na varanda tentando descobrir um sinal. Ate umas cervejinhas rolavam nessas ocasiões. Não descobriu nada. No outro sábado lá estava ele a repetir o ritual dos fins de semana. O barulho do movimento nas ruas, a cadeirinha de plástico e o copo de vidro cheio de cerveja. Um terço de espuma. E ele lá, entorpecido pelo álcool e pela agitação na rua. Lá pelas tantas, ele se lembrou do rádio que ouvia na semana anterior. Foi lá na sala e trouxe o aparelho, sintonizando-o na mesma estação de Amplitude Modulada. Lá embaixo o movimento já começava a diminuir e ele passou a vigiar mais o espaço aéreo. Uma cinco músicas depois, todas oferecidas com carinho ao locutor do programa, viu uma pequena luz que surgiu acima do edifício à sua frente e que deslizava diagonalmente em sua direção. Viu a luz ir crescendo gradativamente. Olhou para as janelas vizinhas e para o chão, tentando ver se alguém mais estava vendo aquela aparição. Ninguém. Tudo Normal. Ficou meio encolhido no fundo da varanda e viu quando o clarão invadiu o lugar e o objeto novamente foi de encontro à parede lateral. Lá estava ele novamente em rodopios e com as luzes fracas se apagando a medida em que parava o giro. Desta vez não perdeu tempo. Correu até lá e já foi procurando a alavanquinha corintiana no fundo. Desta vez, quando a fumacinha sumiu, apareceu uma sunga. Larga, de um grosso material azul claro, com um pequeno solzinho de metal dourado costurado na parte da frente. Reconheceu na hora a sunga de seu falecido pai. Aquela mesma que ele usou na única vez em que viajaram de férias para a praia. Foi quando Sinval viu o mar pela primeira vez e ficou sabendo das histórias emocionantes dos piratas que seu pai contava. Quando eles fizeram castelos e túneis, que de noite seriam invadidos pela água salgada e por siris desaforados. Quando eles desafiaram ondas perigosas e encheram as sungas de areia. Ainda havia resquícios de areia naquela sunga que ele segurava agora. Permaneceu mais um tempo por ali, em meio a lembranças e depois guardou tudo novamente na dispensa e foi dormir. Sinval agora tinha todos os rituais do fim de semana e o aguardava com ansiedade. Cadeira, cerveja, copo e rádio AM. O movimento das ruas e o entorpecimento. E a luz se aproximando e o objeto rodopiando pelo chão da varanda. O metalzinho redondo fez mais quatro viagens e trouxe um chaveiro de hotel, um tubo de lança perfume da válvula prateada, uma gravata vermelha e uma cueca de lycra preta. Grandes lembranças vieram junto a esses objetos, recordações de uma época que tinha ficado para trás, decerto em uma outra dimensão por aí. Pelejou uma maneira de entrar em contato com os remetentes daquelas parafernálias, mas não imaginava como. Queria maquinar uma forma de ser abduzido e ser levado dali para o lugar de onde vinham aquelas coisas. Arrumou um rádio maior, foi em sessões espíritas, piscou luzes em seqüências matemáticas. Nada. Pensou em ir a uma agência de turismo e comprar um pacote para Machu Picchu, parcelado em 12 vezes. Desistiu. Viu todas as suas esperanças e planos irem por água abaixo quando a sua esposa veio lhe mostrar o pequeno rádio de pilha quebrado pela brincadeira de bola das crianças dentro de casa. Aquele mesmo rádio em que ele sintonizava o AM do sábado à noite agora era apenas um punhado de fios e comandos eletro-eletrônicos amontoados numa caixa plástica rachada. Tomou aquilo das mãos da mulher e deu uma baita bronca nos meninos. No outro sábado ainda repetiu todo o cerimonial, mas não obteve sucesso, Não veio nada, faltou o rádio, que jazia quebrado ao lado da cadeira plástica. No outro dia jogou o transmissor no lixo. Aproveitou para jogar também as coisas que estavam no velho cesto de roupa da dispensa. Guardou apenas o lança perfume. Iria ser útil para ajudar a suportar as noites de sábado.
(dito em 4/22/2005 04:39:53 PM )::
Sexta-feira, Abril 15, 2005
É uma brasa, mora!
Rosemiro estava cansado da monotonia da estrada e da direção e resolveu parar para tomar um cafezinho e dar uma mijada. Parou a camionete na sombra de uma árvore e foi em direção à lanchonete. Depois do xixi e do café faria o abastecimento. Entrou pela porta de vidro, procurou a indicação do toalete, mas não avistou nada que indicasse os sanitários. No pequeno salão não havia ninguém, o único vivente daquele local era uma criatura que se posicionava atrás do balcão, perto da máquina registradora. Era uma pessoa com uma grande testa e um tufo de cabelos grisalhos de cada lado, por sobre as orelhas de abano. Era um misto de Bozo com Erasmo Carlos. Perguntou ao cidadão onde era o banheiro. Ele indicou uma portinhola por trás da gôndola de bolachas e Rosemiro seguiu o caminho do alívio urinário. Deu uma bela mijada e viu as borbulhas se formarem no líquido amarelo em que se transformou a água do vaso. Enquanto lavava as mãos, o homem do balcão entrou pela porta do banheiro. Rosemiro agora lavava o rosto e o homem continuava lá parado, observando. Pegou duas folhas de papel para secar as mãos sob os olhares atentos do homem-Erasmo. Depois de jogar os papéis no lixo, ao se dirigir para a portinhola de saída, Rosemiro foi impedido pelo homem, que se posicionou na frente da porta.
- Você não pode sair agora.
- Por que?
- O seu nome não é Possidônio?
- Não.
- Tem certeza?
É lógico que Rosemiro tinha certeza.
- Tenho, é lógico. O senhor poderia me dar licença.
- Não posso.
- Por que? O senhor deve estar me confundido.
- Em nenhuma hipótese. - respondeu o Erasmo - Você corre sério risco de vida se sair daqui agora. Você não é o Possidônio da Turdetânia?
- O quê?
- Foi me dito, Possidônio. Estou aqui para te proteger. Você não lembra de mim?
Rosemiro não lembrava. Só lembrava do Bozo e do Erasmo Carlos.
- Eu sou o Atemídoro.
Quem?
- Olha meu senhor, eu não conheço ninguém com esse nome, nunca vi o senhor na vida e não faço a mínima idéia do que se trata isso. Já disse, o senhor deve estar me confundindo.
- Jamais, meu caro. Tenho o dever de protegê-lo do mal e me foi dado essa incumbência e com bom grado a cumprirei.
O Erasmo Carlos agora tinha um olhar sério e decido, além dos braços abertos encostados na porta, barrando qualquer possibilidade de saída.
- Moço, eu tenho que ir embora...
- Não poderás ir embora agora, os homens da Galícia Bracária poderão desferir um golpe fatal que irá reduzir o seu viver a um nada.
- E quanto tempo eu vou ter que ficar aqui?
- A luz que me iluminou me disse que eu novamente seria avisado de novos planos. Vamos ter que aguardar o mal sair em definitivo.
Rosemiro não queria esperar um novo santo baixar naquela criatura. Tinha que ir embora, os clientes não gostavam de atrasos.
- Olha aqui, meu senhor, como o senhor chama mesmo?
- Atemídoro, grande servo e escriba da Galícia Lucense.
- Pois é, eu sei que o senhor está com a melhor das boas intenções, mas eu preciso ir embora, eu tenho que visitar umas pessoas, fazer uns contratos... Se eu chegar atrasado eu tô fudido, vai tudo por água abaixo.
- Nada poderá ser pior do que a ira dos Bracarienses.
- Mas eu não sou esse aí que você está pensando.
- Enganado, caro Possidônio. A sua mente já está começando a ser corrompida pelo poder dos Teucros. A proteção se faz necessária em caráter urgentíssimo.
Rosemiro deu dois passos para trás e sentou-se no vaso, desconsolado. Que diabos seria aquilo, deus do céu? O Erasmo permaneceu impávido frente à portinhola de madeira. Rosemiro lembrou que ainda tinha que abastecer o carro e tomar um cafezinho, não poderia ficar ali a mercê daquele doidão.
- Me desculpa, mas eu vou ter que sair.
- Não se zangues, ó Possidônio da Turdetânia, mas eu te impedirei.
Rosemiro pensou em gritar, chamar por alguém, mas, além de envergonhado, não sabia o que gritar. Socorro? Gerente? Por favor? Alô? Teria que usar a força e talvez muita força, pois o maluquete era um homem de proporções maiores do que as dele. Mas teria que ser assim.
- Olha, eu vou sair agora, se você não sair eu vou ter que ir à força.
Rosemiro partiu decidido em direção à porta, enquanto o homem ameaçava:
- Serei obrigado a usar de poderes divinos para impedir a sua fuga. - disse Erasmo Carlos enquanto tirava um pedacinho de pau do bolso da calça de tergal. - Bzzz, bzzz, bzzz. - ele pronunciava enquanto apontava o pauzinho para Rosemiro que agora estava parado, olhando atônito para a aquela cena ridícula.
- Ora, dá licença - disse e partiu empurrando o homem da frente da porta, que ficou lá com o seu palitinho e o bzzz, bzzz.
Rosemiro saiu do banheiro sem acreditar naquilo que tinha presenciado. Parou no balcão, que agora tinha outro atendente, dessa vez um anônimo. Pediu um cafezinho e enquanto tomava inquiriu o novo atendente em relação ao Erasmo Bozo. O atendente riu da história, mas não soube dizer quem era o cidadão. Rosemiro pagou o cafezinho e saiu da lanchonete. Pegou o carro estacionado debaixo da árvore e foi em direção às bombas de combustível. Pediu para completar o tanque com gasolina comum, que estava na promoção. Desceu do carro para conferir o abastecimento. Uma carreta entrou no posto bem nesse momento. Um grande pedaço do pneu traseiro direito da carreta se soltou bem no instante em que ela entrou pelo pátio do abastecimento. Guiado pelas leis da física, o pedaço voou em direção ao lugar onde o carro de Rosemiro estava parado. O impacto quebrou o vidro da bomba de gasolina, a lanterna esquerda do automóvel de Rosemiro e lhe causou um corte profundo na testa, que causou uma enorme sangueira e um traumatismo craniano, que foi a causa mortis atestada no boletim médico. Ninguém mais soube de Atemídoro da Lucência, mas soube-se que Rosemiro perdeu um contrato de alguns bons milhares de reais que quase causou a quebra da empresa onde ele trabalhava.
(dito em 4/15/2005 05:06:07 PM )::
Terça-feira, Abril 12, 2005
Liberdade para a alma de um ser que chora
Cidalina acreditava que era cheia de problemas e então não parava de pronunciá-los para todos. Mas Cidalina tinha só 16 anos, talvez nem soubesse o que era ter problemas de verdade, mas não interessa, ela era do estilo deprimidazinha. Criou uma página na internet e satisfez o seu desejo de contar a todos as agruras de sua vida sem sentido e de suas peripécias pelos meandros da sofreguidão. As pessoas deixavam comentários em sua página, diziam para ela ser pra cima, para entrar para a Igreja das Pintas Douradas de Madalena Apostólica, para tomar capim santo com raiz de orvalina doce, para ler os conselhos do iluminado Paulo Coelho. Ela lia todos as mensagens, às vezes respondia agradecida e às vezes esculhambava alguém que a mandava caçar um pau para subir. Certa vez tentou até fazer poemas de lamúrias, mas quando notou que a caixa de saída de esculhambações havia aumentado bastante, pensou que poderia realmente estar escrevendo merda. Continuou apenas com as considerações depressivas, assim ganhava mais. Um belo dia, Cidalina viu uma mensagem de um leitor qualquer que disse que aquilo tudo era conversa fiada, que ela queria era aparecer, que devia ser uma patricinha cheia de vontades e que a mesada do papai não tinha dado para comprar o tênis novo. Como uma pessoa poderia dizer aquilo para ela, uma moça à beira de um ataque de nervos? Entrou em polvorosa, escreveria uma resposta que destruiria reputação moral do cidadão, que o desqualificaria até os calcanhares. Falou horrores para o sujeito e quase chorou ao enviar a mensagem eletrônica. O destinatário recebeu a missiva, que não causou o efeito desejado no dito cujo. Ao contrário, ele riu horrores das linhas enviadas pela moçoila. Divertiu-se tanto que deu prosseguimento à correspondência, mandando nova mensagem avacalhando a resposta de Cidalina. A moça quase morreu de vergonha ao ver aquelas palavras sujas escritas na tela do seu computador. Precisava de um calmante, um anti-distônico ou algo que acalmasse a sua tristeza infernal. Aquilo não poderia ficar assim. Mudou de tática e mandou uma nova mensagem, dessa vez de paz, com palavras doces e agradecimentos cheios de má intenção. O rapaz recebeu a mensagem e ficou sem graça por ter enviado um descalabro tão grande para a mocinha. Mandou uma réplica da tréplica, também pedindo desculpas pelo linguajar agressivo. Chegou até a elogiar um dos poemas que Cidalina havia escrito na semana anterior. A moça dessa vez saltitou feliz ao receber a correspondência e no embalo da leitura, mandou-lhe outra composição, cheia de elogios graciosos. O rapaz, que dizia chamar-se Deocleciano, acabou por se afeiçoar à moça e as correspondências entre eles se avolumaram. Descobriram-se moradores da mesma grande cidade e apreciadores de certas coisas em comum, como sorvete de ameixa e gibis da Turma do Bolinha. Chegou o dia em que ela propôs um encontro, num desses parques cheios de lagos, patinhos e pistas de corridas. Ela estaria vestida de preto e ele vestiria qualquer coisa em tons de azul. Logo conseguiram se descobrir no meio da multidão de domingo. Ele levava um disc-man com músicas dos Beatles e ela carregava um livro de auto-ajuda, que estava em terceiro lugar na lista dos mais vendidos. Conversaram por toda a manhã até ela dizer que teria que ir embora, almoçar na casa da tia Florinda. Antes de sair em definitivo ela tirou um tablete de chocolate da bolsa preta e ofereceu ao jovem Deocleciano. Ele riu satisfeito e pegou o doce, abocanhando-o e finalizando-o em rápidos segundos. Agradeceu a gentileza e perguntou se poderia ligar para ela, para combinarem outro encontro e coisa e tal. Cidalina disse que só lhe daria o número se ele lhe mandasse um mail contando o que tinha achado daquele primeiro encontro. Ele confirmou o envio e depois disso ela saiu e tomou o rumo de um prédio de vidros verdes que ficava ali pelas redondezas. Ele ainda permaneceu no local por mais três músicas, um saco de pipocas e uma coca-cola de latinha com um pequeno amassado na tampa. Deocleciano ainda perambulou pelas ruas por mais um tempinho, comeu um sanduíche mac-qualquercoisa e pegou um cineminha. Voltou para casa e começou a bolar a mensagem que mandaria com as impressões do encontro com Cidalina. Foi quando piorou o mal-estar, que já havia começado a sentir no escurinho do cinema e que agora se avolumava rapidamente. Pensou no sanduíche, que julgou estar contaminado por uma bactéria nefasta qualquer. Quando os vômitos se tornaram insuportáveis ele se lembrou da latinha amassada do refrigerante. Será que aquele amassadinho merrequento havia feito tamanho estrago no seu sistema digestivo? Quando o sangue começou a brotar em seus olhos ele já não tinha forças para se lembrar de mais nada. Nem do seu RG, nem do nome do diretor do filme que havia assistido, nem da pipoca, nem do e-mail de Cidalina e muito menos daquele chocolate que ela havia lhe oferecido em tão singelo e educado momento de despedida. Cidalina, nesse momento, permanecia aguardando o retorno de Deocleciano. Se não recebesse nada eram grandes as chances do seu experimento ter sido bem sucedido. Ainda pegou o vidrinho e conferiu, balançando o líquido armazenado ali dentro, se a quantidade usada podia ter sido pouca. Mais uma vez achou que não. Pelas instruções escritas no verso, imaginou que o tanto usado poderia matar os ratos de todo aquele parque onde estivera pela manhã. Permaneceu em vigília por toda a noite e pela madrugada que a sucedeu. Dois dias depois, quando o jovem Deocleciano foi declarado morto, Cidalina ainda procurava informações nos jornais. Nada. Tirou a sua página da internet do ar, sumiu com todos os vestígios da sua existência e criou outra, agora cheia de bonequinhas, bichinhos, arco-íris, barbies e fru-frus que uma menininha alegrezinha tem direito. Ali ela daria conselhos de como embelezar o viver sem sentido de pessoas iguais àquelas que ela havia sido.
(dito em 4/12/2005 03:16:42 PM )::
Segunda-feira, Abril 04, 2005
Pictures
Chico passou na floricultura e mandou preparar um arranjo de flores do campo, que era o que mais gostava. Saiu com um belo buquê colorido, borrifado de água gelada, rumo ao apartamento de Roseli, que ficava a uns poucos metros dali. A garota o recepcionou vestida com uma camiseta sem mangas e uma calcinha de algodão com um desenho Hello Kitty. Era o traje que ele mais gostava nela. A camiseta amassada e o cabelo desgrenhado denunciavam que ela havia acabado de sair da cama. Chico ficou apreensivo, pois ela não era das mais doces ao acordar, porém Roseli não demonstrou nenhum sinal de mau-humor ao ver o arranjo que Chico trazia em suas mãos. Até beicinho ela fez ao pegá-lo nas mãos. Ele se sentiu o homem mais feliz do mundo ao ver aquela cena, pensou que aquele take deveria ficar eternamente registrado e arrependeu-se de não ter usado uma câmera digital para imortalizá-lo. Ela deu-lhe um longo beijo de agradecimento e correu para a cozinha para providenciar algum recipiente para acomodar as flores. Ela ajeitava o buquê numa jarra de sucos alaranjada, enquanto ele folheava um encarte do jornal do dia anterior. Depois de pronto, ela saiu em direção ao quarto e voltou com outra camiseta, agora de mangas, e de short. Ele não gostou da mudança, mas viu que ela trazia uma máquina fotográfica nas mãos. Ela posicionou a máquina em cima da TV e dirigiu a cena, para que um disparo automático os registrasse ao lado das flores. Deixou Chico ao lado do vaso, fez o ajuste na máquina e correu para sair na foto. No momento do disparo ela lhe beijou o rosto e ele novamente desejou que aquilo ficasse registrado eternamente. Dessa vez as chances eram maiores, apesar de que ele só teria certeza após a revelação do filme. Perguntou a ela quantos fotos ainda tinham para ser batidas e ela respondeu que eram dez. Ele sugeriu acabarem com aquele filme, pois ele queria ver aquela foto ainda hoje. Então resolveram dar cabo às fotos restantes. Inventaram poses e cenários e consumiram o filme todo. Resolveram ir ao shopping fazer a revelação das fotos. Ela foi tomar banho e ele voltou a folhear o encarte do jornal. Ela voltou linda e cheirosa e ele lamentou que as fotos não pudessem captar aquele perfume. Desceram escada abaixo e na rua conseguiram um táxi amarelo que os levou ao shopping. A primeira tarefa foi levar o filme na loja de cine-foto-som. Uma hora. Sentaram num banquinho perto de uma lanchonete e tomaram uma vitamina que fez as vezes de café da manhã. Conversaram amenidades até o horário marcado pela moça da loja. Vinte e duas fotos foram reveladas, algumas do aniversário da mãe dela, outras da sobrinha de janelinhas nos dentes e aquela que ele mais queria: os dois, o arranjo de flores e o beijo na bochecha. Ela tirou uma caneta da bolsa, escreveu "te adoro, lindo" nas costas da foto e entregou para ele. Os olhos de Chico brilharam e ele teve vontade de chorar. Só conseguiu dizer obrigado. Ela lhe beijou o rosto novamente, enquanto ele guardava a foto no bolso da camisa. Ficaram ali por mais algum tempo e depois saíram para almoçar, depois para passear e mais à noite tomaram um chope num barzinho descolado que tinha perto da casa dela. "Um dia perfeito", ele pensou. Roseli deu um beijo de despedida em Chico e disse que já estava cansada e queria dormir. Ele disse "até amanhã", ela subiu sozinha e ele foi embora planejando no caminho mais dias como aquele, com flores, fotos, sorrisos e beijos. Ficou só no planejamento. Aquele beijo na portaria e aquele "até amanhã" se tornaram os últimos momentos que compartilharam juntos. Chico não entendeu nada quando Roseli passou a não atender mais as suas ligações e nem o interfone do prédio onde morava. Pensou até que ela tinha morrido ou sido internada num hospital qualquer ou vítima de um seqüestro, quando, três dias depois, recebeu uma ligação de Lídia, a grande amiga de Roseli, que disse que ligava em nome da outra, que disse ser uma fraca e que não conseguiria lhe dizer aquilo diretamente e blá, blá, blá. Roseli havia terminado o namoro de quase um ano através da amiga. Não teve nem coragem de dizer aquilo diretamente a ele, que continuou a procurá-la sem sucesso. Um mês depois ele a viu no mesmo boteco daquele dia em cenas amorosas com um outro qualquer. Foi nesse momento que ele desistiu de vez. Novamente quis ter uma máquina que pudesse registrá-la naquela situação para que ele nunca mais tivesse uma recaída. Mas pensou bem e viu que não queria guardar momentos tristes como aquele. Foi embora pra casa e procurou a foto dos dois, do arranjo de flores e do beijo na bochecha. Olhou no verso, leu as palavras escritas por Roseli, pegou uma caneta e riscou bem forte o "te adoro" e a vírgula que existia logo depois. Deixou apenas o "lindo" devidamente acrescido de um ponto de exclamação. Era o que melhor exprimia o que havia sido aquele momento. Agora era só levantar um pouco a cabeça e procurar outros como aquele.